junho 23, 2004

Escritos de Um Cidadão Deposto - 6

Alcemos digo a fronte que entontece
quem nos lê lá de longe tanta altura,
coroemo-nos de folhas de louro
idas buscar a Ovídio — fugia a deusa.
Temos razões de sobra para o pódio.
Depois, o outro mundo é um desespero
de anjos castos e virgens para sempre,
e no inferno não há ninguém, só magma.
Vitrines de halogéneo, néons, semáforos,
a dispersão urbana, os hotéis iguais,
cantemo-nos e o sol também cantemos,
que nos dizem durar mais que a poesia,
embora caiba a nós, ungidos, cultivar
a dúvida e não ter certezas nenhumas,
a não ser a que absortos esquecemos
como Narciso olhando o seu umbigo:
hoje ninguém se lembra de Teócrito.
Nasceu em Siracusa, ao que sabemos.
Na Sicilía há alguém que o tenha visto?
Já se não ouve Daphnis, só seu eco:
Formas tão belas nunca viu a lua!...
Dou-te vestidos novos, doce amante!

© as musas esqueléticas

Rascunho 22.6.04

Alcemos digo a fronte que entontece
quem nos lê lá de longe tanta altura,
coroemo-nos de folhas de louro
idas buscar a Ovídio — fugia a deusa.
Temos razões de sobra para o pódio.
Depois, o outro mundo é um desespero
de anjos castos e virgens para sempre,
e no inferno não há ninguém, só magma.
Vitrines de halogéneo, néons, semáforos,
a dispersão urbana, os hotéis iguais,
cantemo-nos e o sol também cantemos,
que nos dizem durar mais que a poesia,
embora caiba a nós, ungidos, cultivar
a dúvida e não ter certezas nenhumas,
a não ser a que absortos esquecemos
como Narciso olhando o seu umbigo:
hoje ninguém se lembra de Teócrito.
Nasceu em Siracusa, ao que sabemos.
Na Sicilía há alguém que o tenha visto?
Já se não ouve Daphnis, só seu eco:
Formas tão belas nunca viu a lua!...
Dou-te vestidos novos, doce amante!

Publicado por mb em 12:02 AM | Comentários (1) | TrackBack

junho 10, 2004

CAMÕES

          "No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
            Destemperada e a voz enrouquecida"
            Os Lusíadas

Não tivesse chegado até Macau
e da gente não fosse a mente escrava,
a pátria virtual que em si salvava
seria, como a tantos, um degrau.

Poderia vencê-lo em quanta nau
de sol e ouro a pimenta o mar passava,
aumentando à fortuna que faltava
as Rimas e o horizonte — estreito vau.

Mas ardia, escrevendo o livro, e a pátria
nem sequer existia, como agora
e como ele, uma estátua desmontada.

Nem dos ossos lhe soube a suja mátria,
e se a voz ficou, não sei se demora:
entre os carros se vai, ruas de nada.

© as musas esqueléticas

Publicado por mb em 02:56 PM | Comentários (1) | TrackBack

junho 05, 2004

Escritos de Um Cidadão Deposto:
De Uma Notícia a Favor da Paz

Éramos todos filhos de inimigos
e agora resolvemos cantar juntos
algures numa sala em Barcelona.
Não chega, lá de fora, o clamor do trânsito,
só se escuta o coral das nossas vozes,
e não há quem entenda o que dizemos:

Quando subimos ao céu como pássaros
estilhaçados, ouve-se a barítonos
que só os cães da fome reconhecem:

Cantai, cantai, sois livres de cantar.
Da vossa vida breve se alimenta
a semente que a nós nos perpetua,
e assim desde o princípio, eternamente.

© as musas esqueléticas

Rascunho 5.6.04

Éramos todos putos filhos de inimigos
e agora resolvemos cantar juntos
algures numa sala em Barcelona.
Não se ouve Não chega, lá de fora, o intenso trânsito o clamor da urbe do trânsito,
só se escuta o coral das nossas vozes,
e não há quem perceba como ecoa o que dizemos.

Quando subimos no ar, estilhaçados
pássaros, ouve-se uma voz tão longe
que só os cães da fome dão por ela:

Quando subimos ascendemos subimos ao céu como pássaros
estilhaçados, ouve-se a barítonos
que só os cães da fome reconhecem:

Cantai, cantai, sois livres de cantar.
Da vossa vida breve se alimenta
a semente que a nós nos perpetua,
e não há deus no céu que o modifique.
e assim desde o princípio, eternamente.

Publicado por mb em 10:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 22, 2004

Quando não houver mais nada, o ar

Querem privatizar a água, os íntimos
lençóis de água de onde se geram rios,
e mares, e peixes, e grandes navios brancos
que demandavam outras terras
quando ainda as havia como esta que se esvai.
Parece não surgir quem se incomode.
Uns não fazem caso; os mesmos
que há oitocentos anos, de geração em geração,
sempre traíram, aplaudem;
e os magnates na sombra inventam
doutrinas políticas que os ministros
cumprem fielmente, mandatados pelo povo.
Povo, que abstracção mais rara.
Que se lixem! Já fiz o que devia
e quase me queimaram a casa e o jardim
quando em bando de gafanhotos migratórios
a turbamulta marchava contra mim,
em silêncio, sem palavras de ordem,
mas segurando facas e archotes,
parecia a wermacht na grande guerra,
as botas batiam na poeira o som da morte
e levantavam o cheiro dos cadáveres.
Que me importa que privatizem a água,
se tenho um poço e, além do mais,
posso ir de poço em poço comprar água,
se mo selarem por ordem do tribunal?
Tomara que viva o suficiente
para que a lei da água se cumpra
em todas as cidades e aldeias de velhos.
Hei-de ver o povo eleitor de máscara
e botija de ar às costas ir votar
e abastecer-se daquilo que é o vento,
os quatro ventos livres dos gregos,
encarcerado finalmente em depósitos.
Então arranjarei maneira de furar as nuvens
e, como de água tenho um poço,
terei um furo no céu para que o ar me seja grátis.
Mas agora vejo, ó musa lírica e saltitante,
que do que falo também é proibido
nos tratados de poesia contemporânea,
hão-de lembrar-me os aedos de cantar puro.


© as musas esqueléticas

Rascunho 18.5.04


Querem privatizar a água, os íntimos
lençóis de água de onde se geram rios,
e mares, e peixes, e grandes navios brancos
que demandavam outras terras
quando ainda as havia como esta que se esvai,.
e parece Parece não haver surgir quem se incomode.
Uns não fazem caso,; os mesmos
que há oitocentos anos, de geração em geração,
sempre traíram, aplaudem, ;
e os magnates na sombra inventam
doutrinas políticas que os ministros
cumprem fielmente, mandatados pelo povo.
Povo, que abstracção mais rara.
Que se lixem! Já fiz o que devia
e quase me queimaram a casa e o jardim,
quando em bando de gafanhotos migratórios
a turbamulta marchava contra mim,
em silêncio, sem palavras de ordem,
mas segurando facas e archotes,
parecia a wermacht na grande guerra,
as botas batiam na poeira o som da morte
e levantavam o cheiro dos cadáveres.
Que me importa que privatizem a água,
se tenho um poço e, além do mais,
posso ir de poço em poço comprar água,
se mo selarem por ordem do tribunal?
Tomara que viva o suficiente
para que a lei da água se cumpra
em todas as cidades e aldeias de velhos.
Hei-de ver o povo eleitor de máscara
e botija de ar às costas ir votar
e abastecer-se daquilo que é o vento,
os quatro ventos livres dos gregos,
encarcerado
encarcerados finalmente em depósitos.
Aí hei-de arranjarEntão arranjarei maneira de furar as nuvens
e, como de água tenho um poço,
ter terei um furo no céu para que o ar me seja grátis.
Mas agora vejo, ó musa lírica e saltitante,
que do que falo também é proibido
nos tratados de poesia contemporânea.,
hão-de lembrar-me os aedos das palavras puras.

Publicado por mb em 10:35 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 25, 2004

25 DE ABRIL

— Ninguém se lembrou da palavra involução? — perguntaria o general.

Na reforma, destituído do poder e com uma ordenança mentecapta, o general, de fato de cem euros, olha vagamente o clarão da janela e ouve o clamor da populaça a festejar coisa nenhuma. Está-se nas tintas, não finge: retirou, não é um derrotado, mas a multidão não clama por ele. A multidão é volúvel e estúpida, e o general agora sabe que ela não merecia o seu fervor e dedicação. Entre cínico e amargo, escuta os senadores rapaces a espoliá-la com mentiras, e sorri ou pensa que sorri.

Publicado por mb em 01:43 PM | Comentários (5) | TrackBack

março 28, 2004

Está morto el-rei D. João II,
e os poetas da corte vão mudando
conforme o seu senhor;
hoje é um, amanhã é outro,
e todos se parecem pressurosos
com quem lhes dita os versos
e em glória os imprime e dá ao reino.

Um punhado de terra a cada geração
enche a boca de Camões,
e agora nenhum vate surge
que não escreva
o seu pessoalíssimo sentir
em que o país se afunda sem saber.

© as musas esqueléticas

Rascunho 27-30.03 e 19.04.04

Está morto el-rei D. João II,
e os poetas da corte vão mudando
conforme o seu senhor;
hoje é um, amanhã é outro,
e todos se parecem pressurosos
com quem lhes dita os versos
e em glória os imprime e dá ao reino.

Um punhado de terra a cada geração
enche a boca de Camões,
e agora nenhum vate surge
que não escreva
o seu pessoalíssimo sentir
em que o país se afunda sem saber dar conta.

Publicado por mb em 07:30 PM | Comentários (0) | TrackBack