Gostava de ficar deitado
a escutar Carlos Seixas
sob as tílias floridas numa praça
que o verão deste mês de Junho
tivesse esvaziado,
as janelas cerradas para férias,
a gente algures junto ao mar.
Talvez deva prestar fidelidade
às coisas altas e ao seu voo
de maneira exclusiva.
Mas sei, só a existência
dá vida ao que se eleva.
Seixas seria muito mais real
e também mais humano
se acaso houvesse alguém
connosco sob as tílias que partilhasse
o som de antigos séculos
no sossego das horas divididas.
Sozinhos, começamos a pensar
em Deus e a ter saudades e a ver lírios
no que é apenas música
e uma vontade igual do paraíso
que havia há muito tempo e que fechou.
© as musas esqueléticas
Rascunho 20.6.04
Gostava de ficar deitado
a escutar Carlos Seixas
sob as tílias na floridas numa praça
que o verão deste mês de Junho
tivesse esvaziado,
as janelas cerradas para férias.,
a gente algures junto ao mar.
Talvez deva prestar fidelidade
às coisas altas e ao seu voo
de maneira exclusiva.
Mas em tudo a existência prevalece.
Mas sei, só a existência
dá vida ao que se eleva.
Seixas seria muito mais real
e também mais humano
se acaso houvesse alguém
comigo connosco sob as tílias que partilhasse
o som de antigos séculos.
na tepidez no sossego das faces repartidasdas horas dividas divididas.
Sozinhos, começamos a pensar a lembrar a pensar
em Deus um deus em Deus e a ter saudades e a ver lírios
no que é apenas música
e uma vontade ansiedade uma vontade igual de um do paraíso
que havia há muitos anos e fechou muito tempo e que fechou.
Quando os móveis perderam o sentido
que os ligava ao calor da pele e à vida,
e do quarto e da sala assim vazios
vai desaparecendo a sua luz,
transformando-os em sítios sem regresso,
que ninguém lamente o homem ter partido
se sente haver ainda o mundo em volta,
se a lucidez lhe assiste aos olhos claros,
se sabe ao longe os vultos femininos
que em dias cronológicos lhe foram
de forma sucessiva retirando
as ilusões, de tal modo que vê
Maria ainda morna na memória
e o que está a fazer a esta hora em casa:
enche um prato de sopa solitária,
deixa-o no microondas a aquecer
e vai sentar-se à mesa da cozinha
sem nenhum ritual que torne diverso
o seu jantar, enquanto as perspectivas
para amanhã
de o sol nascer no lado oposto ao de hoje
lhe surgem cada vez mais duvidosas.
© as musas esqueléticas
Rascunho 18.6.04
Quando os móveis perderam o sentido
que os ligava ao calor da pele e à vida,
e do quarto e da sala assim desertos vazios
vão vai desaparecendo os seus contornos a sua luz,
e mudam-se mudando-os em lugares transformando-os em sítios sem regresso, (quebra de estrofe)
que ninguém lamente o Não há exílio no Que ninguém lamente o homem que partiu por ter-se ido ter partido
se sente haver ainda o mundo em volta,
se a lucidez lhe assiste aos olhos claros,
se vê sabe ao longe os vultos femininos
que em dias cronológicos lhe foram
de forma sucessiva retirando
a esperança as ilusões, de tal maneiraFONT face=verdana color=#339933 size=2> modo que vê
ele adivinha o que a estas horas faz
um vulto Maria ainda morno morna na memória: (quebra de estrofe)
e o que está a fazer agora a esta hora em casa:
enche um prato de sopa e sem ninguém e sozinha solitária,
põe-no no microondas a aquecê-lo
e senta-se na mesa da cozinha
sem nenhum ritual que torne diverso
o seu jantar, enquanto as perspectivas
para amanhã
de o sol nascer no lado oposto ao de hoje
lhe surgem cada vez mais improváveis duvidosas.
Da esperança de nada se consomem os dias,
a luz, o sol do caos com súbitos lampejos
que iluminam os prédios e os revelam claríssimos
sem haver um sentido, janelas e paredes
que um construtor civil ergueu com o suor
do seu rosto, diria, se acaso não soubesse
que ele tinha descido de uma aldeia das serras
que envolvem a cidade, com uma águia a planar,
picando de repente ao ver uns alicerces
por abrir no terreno, onde hoje outra vez vi
as vinhas a brilhar, para de agora a um ano
entregarem o vinho como ovelhas o leite,
numa tarde igual a esta, sem nenhuma grandeza,
a não ser a que advém de nos vermos estranhos,
sentados a uma mesa, e nós jamais ali,
a comer e a beber na eternidade alheia.
E hoje não sei fazer senão versos como estes,
pesados, longos, certos, para assim lentamente
aquilo que eu sonhara e o aroma que retenho
das mãos se esvanecer. Disse-te as madressilvas
que me enchiam o carro quando a noite era amena
e os dias que faltavam, e a estrada, o rumo inverso
como foi a vida toda que nem sequer gastámos.
E já se cala o poema para que possa ouvir-se,
ouvir-se como um eco, inventar a verdade
de quanto se viveu e não mais voltará.
Há uma flor no rio, há uma flor no rio,
não podemos salvá-la, só nos restam poemas,
queimam por sob a pele, é uma maldição
meditar-se a si mesmo em poesia sentindo
sempre excessivamente e pensando em excesso.
Não, não fales, ou fala do modo que só tu
sabes falar, os tons que guardo, o que é só teu,
não te quero lembrança, a memória é um ermo
de rostos esvaídos e nela nos perdemos
e dela é que fazemos todos literatura,
e não das madressilvas, as madressilvas não são
literatura, vivem e ardem no mês de Junho.
Ou não eram, desdigo-me. Ardem só em poemas.
Mas também vivem e ardem nesta noite de Junho
que não mais nos pertence. Não tarda que amanheça
e volte o sol do caos com súbitos lampejos,
dando à realidade os seus seres e coisas
a duas dimensões, que alheios se tornaram.
Têm altura e largura, são imagens anódinas,
falta-lhes o volume, não significam nada,
prédios, ruas, o carro, vinhas, o restaurante.
Olha-se a catedral: avulta na cidade
e prevalece em pedra, em pedras sem crepúsculo.
É o sol violento que tudo me desvela,
o cenário em que existo com esta gente toda,
destinos sem ficção à espera eu sei de quê.
Sem suores. Calados. Simples. Como nascemos.
© as musas esqueléticas
Rascunho 16.6.04
Da esperança de nada se consomem os dias,
a luz, o sol caótico do caos com súbitos lampejos
que iluminam os prédios e os tornam revelam claríssimos
e vácuos de sem haver um sentido, paredes e janelas janelas e paredes
que um construtor civil ergueu com o suor
do seu rosto, diria, se acaso não soubesse
que ele havia tinha descido de uma aldeia das serras
Em volta da que envolvem a cidade, como com uma águia a planar,
picando de repente ao ver os uns alicerces
por abrir no terreno, onde hoje outra vez vi
as vinhas a brilhar para de agora a um ano
entregarem os cachos como ovelhas o leite
numa tarde igual a esta sem nenhuma grandeza,
a não ser a que advém de nos vermos como outros estranhos
sentados a uma mesa, que nunca e nós jamais ali
a comer e a beber na eternidade alheia.
E hoje não sei fazer senão versos como estes,
pesados, longos certos, para assim lentamente
aquilo que eu sonhara e o aroma que retenho
das mãos se me esvair esvanecer. Disse-te as madressilvas
que me enchiam o carro quando a noite era amena
e os dias que faltavam, e a estrada, o rumo inverso.
E já o grito se amordaça se cala o poema para que possa ouvir-se,
ouvir-se como um eco, inventar a verdade
de quanto se viveu e não mais voltará.
Há uma flor no rio, há uma flor no rio,
não podemos salvá-la, só nos restam poemas,
Já arde queimam por sob a pele, é uma maldição
meditar-se a si mesmo em poesia sentindo.,
sempre excessivamente e pensando em excesso.
Não me, não fales, ou fala do modo que só tu
sabes falar, o tons que guardo, o que é só teu,
não te quero lembrança, a memória é um ermo
de rostos apinhados esvaídos e nela nos perdemos
e dela é que fazemos todos literatura
e não das madressilvas, as madressilvas não são
literatura, vivem e ardem no mês de Junho.
Ou não eram e vivem, desdigo-me. Ardem só nestes versos em poemas,
mas também vivem e ardem nesta noite de Junho
que não mais menos pertence. Não tarda que amanheça
e volte o sol caótico de súbitos lampejos
dando à realidade os seus seres e coisas
a duas dimensões, que alheios sempre foram se tornaram.
Têm altura e largura, são imagens anódinas,
não têm falta-lhes o volume, não significam nada. ,
prédios, ruas, o carro, vinhas, o restaurante.
Olha-se a catedral: avulta na cidade
e prevalece em pedra, em pedras sem crepúsculo.
Só a luz violenta os irá desvelar,
É o sol violento que tudo me desvela,
cenário onde me movo à espera eu sei de quê,
o cenário em que existo com esta gente toda,
destinos sem ficção à espera eu sei de quê.
sem haver melodramas, simples, como nasci.
Sem suores. Calados. Simples. Como nascemos.
"Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
Manuel Bandeira
Dentro dela escondia
os seios pequeninos e redondos
sob uma displicente blusa
de sarja que deixava cair solta
à maneira de Woodstock.
Seria esse o seu modo
de manter-se distante
e desejar-se perto no silêncio.
Jogando a sorte, não sabia
— ou a si ocultava —
que era neles que as almas de ambos
apostavam o corpo,
sem amor que valesse menos
que uma aposta perdida
e as almas entendidas,
ao contrário da epígrafe,
pudessem vir primeiro
que os seios pequeninos
e as mãos que neles tudo dela
julgavam possuir.
© as musas esqueléticas
Rascunho 12.6.04
Dentro dela escondia
os seios pequeninos e redondos
sob uma displicente blusa
de sarja que se usava deixava cair solta
à maneira do da gente de Woodstock .
Mas esse era Seria essejeito modo
de manter-se se manter distante
e desejar-se perto no silêncio.
Jogando a sorte, não sabia
— ou em a si ocultava —
que era neles que as almas de ambos
apostavam o corpo
sem amor que valesse
uma aposta perdida
ou que e as almas já tidas entendidas,
ao contrário da epígrafe,
pudessem por acaso vir primeiro
que os seios pequeninos
e as mãos que neles tudo em si continham dela
julgavam possuir.
"Memória minha, guarda-os tu tais como eram."
K. Kavafis
É como a guerra: os campos em redor
deixaram de ser chão
e cercam as muralhas da cidade
com os seres do antigo caos.
Lentamente da língua se apagaram
nomes de cereais. Já se não vê
no rasto dos tractores a poeira
e o céu tornou-se o eterno clarão branco.
Falo agora sobre isto
como o faria sobre o mar sem barcos
ou sobre qualquer outro dos desgostos
que devagar me levam me queimando,
numa altura em que todos se juntaram.
Algures para leste flana a imagem
que os despertou
e o cheiro a madressilvas de verão
que trazia guardado no seu corpo
e que não se me apaga mais de mim.
Não é somente o cheiro.
Imagens sobre imagens, é já tudo
o que do fundo de limos
o rio do horizonte vai subindo,
alagando-me os olhos com restos de erosão.
Ao menos me chegasse só o aroma.
Para o lado do mar há esplanadas
e podia levar o livro de Kavafis,
sentar-me e resolver nos seus poemas
a tão viva lembrança desse odor.
Mas vai demorar algum tempo ainda
para que eu fique só, guarde tranquilo
o cheiro a madressilvas na memória
e o relembre em poemas de Kavafis.
© as musas esqueléticas
Rascunho 11.6.04
"Memória minha, guarda-os tu tais como eram."
K. Kavafis
É como a guerra: os campos em redor
da cidade deixaram de ser chão
e cercam as muralhas da cidade
com os seres do antigo caos.
Lentamente da língua se apagaram
nomes de cereais, já. Já se não vê
no rasto dos tractores a poeira
e o céu tornou-se o eterno clarão branco.
Escrevo Falo agora sobre isto
como o faria sobre o mar sem barcos
ou sobre qualquer outro dos desgostos
que devagar me levam me queimando,
numa altura em que todos se juntaram.
por a morte me ter chegado,
deixando-me vazios os olhos e as mãos.
Algures para leste flana a imagem
que um dia em mim guardava
que os despertou
e o cheiro a madressilvas de verão.
que trazia em si guardadonela no seu corpo
e que não se me apaga mais das mãos de mim.
Já não é esse cheiro que perdi.
Não é somente o cheiro.
Imagens sobre imagens, é já tudo
o que do fundo de limos
o rio do horizonte vai trazendo,
alagando a aridez com restos de erosão.
Ao menos me chegasse ele sozinho só o aroma.
Para o lado do mar há esplanadas
e podia levar o livro de Kavafis,
sentar-me e resolver em seus poemas
a lembrança daquele cheiro a madressilvas
Mas vai demorar algum tempo ainda
para que eu fique só e viva calmamente , guarde tranquilo
o cheiro a madressilvas na memória
e o relembre em poemas de Kaváfis.
No peito não tem mais
aquilo a que é costume chamar-se coração.
Somente uma ampulheta o vai sustendo,
e a cada volta dada, cada passo seu
sem temor ou sequer pena ou saudade,
em direcção à areia derramada
quando o vidro no peito se quebrar.
Sonhos fugazes, disse, e acrescentou:
a curva sensual de uma pantera,
tão contrária à de Dante
quando ao longo da espinha se lhe passa um dedo,
poderá ser um sonho desses.
Para tanto é preciso
aquilo a que é costume chamar-se coração.
E a cidade ficou deserta
com os seus habitantes recolhidos,
cheios de corações e de ampulhetas
à espera de quebrar-se,
e em carros e hotéis bradam as mulheres
de lascívia grosseira,
sem a curva dos sonhos mais fugazes.
© as musas esqueléticas
Rascunho 10.6.04
No peito não tem mais
aquilo a que é costume chamar-se coração.
Somente uma ampulheta o vai sustendo,
e a cada volta dada, cada passo seu
sem temor ou sequer pena ou saudade,
em direcção à areia derramada
quando o vidro no peito se quebrar.
Sonhos fugazes, disse, e acrescentou:
a curva sensual de uma pantera,
tão contrária à de Dante
quando ao longo da espinha se lhe passa um dedo,
poderá ser um sonho desses.
Para tanto é preciso
aquilo a que é costume chamar-se coração.
E a cidade ficou deserta
com os seus habitantes recolhidos,
cheios de corações e de ampulhetas
à espera de quebrar-se,
e em apartamentos ronronam carros e hotéis bradam as panteras mulheres
de estúpida lascívia,
de lascívia grosseira,
sem a curva dos sonhos mais fugazes.
POEMA DOS CDs TRISTES
Dizes que não existe a eternidade
de uma vida feliz,
e o outro, que às vezes fica melancólico
por querê-la um minuto ainda,
acredita que existe
num lugar remoto,
nem que seja no instante de que falas
quando serena inventas,
ao som dos teus CDs mais tristes,
não haver a esperança da alegria.
© as musas esqueléticas
Rascunho 8.6.04
Dizes que não existe a eternidade
de uma vida feliz,
e o outro, que fica triste às vezes às vezes fica melancólico
por querê-la um minuto ainda,
acredita que existe
nalgum num lugar remoto a essa eternidade,
nem que seja esse instante de que falas
quando serena inventas,
ao som dos teus CDs mais tristes,
não haver a esperança e a da alegria.
Não há fim de caminho, que todo ele
é a mesma existência de onde nascem
e se detêm rostos e segredos:
de segredos se faz o rosto amado.
Nem há sequer caminho, há o poente
que às vezes traz de longe a madrugada
para nos clarear cada momento
que anule o antigamente caminhado.
Só o fulgor eleva sem tristeza
o olhar além da cinza suburbana
e nos liberta e vota a uma outra vida.
É nele que se iguala quanto vemos
em deuses e na falta imaginado,
e de manhã nos ergue, e a que sorrimos.
© as musas esqueléticas
Rascunho 7.6.04
Não há fim de caminho se que todo ele
atravessa a é a mesma existência de onde nascem
e se tomam detêm um rosto rostos e os seus segredos:
de segredos se faz o rosto amado.
Nem sequer há há sequer caminho, há o poente
que às vezes traz de longe flores e aves a madrugada
para nos povoar clarear esse cada momento
que anula prontamente anule o antigamente caminhado.
Só o que é alto o fulgor eleva sem tristeza
o olhar sobre a cinza suburbana
e nos liberta e vota a uma outra vida.
É aí nele que igualamos quanto vemos
em deuses e na falta imaginado,
e no desperta ao sol com um sorriso.
e de manhã nos ergue, e a que sorrimos.
Aqui, de onde ouço carros a passar
rumo a antigas viagens que já fiz,
de onde pela janela os cedros fitam
o tempo dos meus dias, sentinelas
que não vão deixar-me ir ao paraíso,
cedros com raízes firmes e obscuras,
mergulhadas na minha carne, a terra
e as cinzas, a mudez que tudo espera,
aqui me saberia de outro modo
se um deus rude chamado acaso visse
a injustiça das mãos assim vazias
e pudesse tornar-lhe a elas a curva
que se acende e ilumina quando tocam
a flor da pele — vibra na memória
essa lembrança líquida do cheiro
que as madressilvas soltam no verão
e que inunda a surpresa alva do corpo,
como se os meus vinte anos me tornassem
sem os haver sequer tido algum dia,
se imagino os tivesse agora aqui
com a dor e a alegria acumuladas.
A poesia é a farsa luminosa
que de mim mesmo enceno. Vejo o abeto
além subindo ao céu, cheio de ninhos
e de melros que cantam: alimentam-se
da sua seiva e sombras resinosas,
é a casa onde tudo está certo, onde
o desejo não é uma surpresa,
onde nada inquieta a simbiose
dos ramos com os melros, porque nada
precisa de memória, e os automóveis
continuam a rota, e passam sob ele,
e por momentos são apenas carros,
e os cedros, sentinelas que vigiam,
com raízes na terra, a minha carne.
© as musas esqueléticas
Rascunho 2.6.04
Aqui, de onde ouço carros a passar
rumo a antigas viagens que já fiz,
de onde pela janela os cedros fitam
o tempo dos meus dias, sentinelas
que não vão deixar-me ir ao paraíso,
cedros com raízes firmes e obscuras,
mergulhadas na minha carne, a terra
e o húmus as cinzas, a mudez que tudo espera,
aqui me saberia de outro modo
se um deus rude chamado acaso visse
a injustiça das mãos que estão assim vazias
e pudesse tornar-lhe a elas a curva
que se acende e ilumina quando tocam
a flor da pele - vibra na memória
essa lembrança líquida do cheiro
que as madressilvas soltam no verão
e que inunda a surpresa alva do corpo,
como se os meus vinte anos me tornassem
sem os haver sequer tido algum dia,
se imagino os tivesse agora aqui
com a dor e a alegria acumuladas.Aqui quebra de estrofe
A poesia é a farsa luminosa
que de mim mesmo enceno. Vejo o abeto
além subindo ao céu, cheio de ninhos
e de melros que cantam: alimentam-se
da sua seiva e sombra sombras resinosas,
é a casa onde tudo está certo, onde
o desejo não é uma surpresa,
onde nada inquieta a simbiose
dos ramos com os melros, porque nada
precisa de memória, e os automóveis
continuam a rota, e passam sob ele,
e por momentos são apenas carros,
e os cedros, sentinelas que vigiam,
com raízes na terra, a minha carne.
Existimos à flor da luz, o sol
a banhar-nos o corpo como às praças
e muitas vezes mais nada do que isso,
ou seja, somos seres como já fomos,
da altura em que o homo sapiens e a mulher
nos fizeram, seus filhos atentíssimos
aos movimentos mínimos dos músculos
e das glândulas, e hoje — acrescentando —
ao telemóvel e à salada russa
da qual minuciosos procuramos
os sabores do atum, da maionese
e do sílex que uma hora depois vamos
trabalhar sem cuidarmos que outra vida
subjaz dentro de nós, a proibida,
aquela que tantas vezes nos faz
lembrar a queda e o medo, por querermos
ser o que imaginávamos nos deuses.
Subimos quando o sol que nos envolve
nos sobraquece e torna enlouquecidos;
quando vemos as flores explodir,
abrindo o luminoso precipício
dos corpos, a que é uso dar-se nomes
tais como amor, amour, love, etc.
exactamente o mesmo que os estames
da flor trazem ao cálice, diria,
ressalvando as devidas diferenças
para não irritar sentimentais
que sem pensar devorem a paixão,
esse outro nome agora verdadeiro,
com o qual, primavera a primavera,
enganamos a morte pelo fogo
retirado do sol que nos aquece.
Quanto ao mais, o vulgar das saladas,
a casa que dir-se-ia o mundo inteiro,
as pessoas que estão fartas de nós
e que partem connosco o dia-a-dia
e a quem só anedotas nos irmanam
no deserto de pó e corredores,
das incontáveis fábricas de sílex,
tudo isso não nos força a procurar
um novo entendimento ao precipício,
paixão, amor, amour, love, etc.
talvez a lua e um lume que durasse
e que os olhos tivessem de outros olhos.
© as musas esqueléticas
Rascunho 1.6.04
Existimos à flor da luz, o sol
a banhar-nos o corpo como às árvores praças
e muitas vezes mais nada do que isso,
quero dizer queou seja,
somos seres como éramosjá fomos,
de quando o homo sapiens e suas fêmeas mulher
nos geraram, fizeram,
seus filhos atentíssimos
aos movimentos mínimos dos músculos
e dos órgãos e agora muito mais
e das glândulas, e hoje — acrescentando —
ao telemóvel e à salada russa
da qual minuciosos procuramos
os sabores do atum, da maionese
e do sílex que uma hora depois vamos
trabalhar sem cuidarmos que outra vida
subjaz dentro de nós, a proibida,
aquela que tantas vezes nos faz
relembrar que caímos por querer
lembrar a queda e o medo, por querermos
ser o que imaginávamos nos deuses,.
e só vemos quando a luz que nos contorna
Subimos quando o sol, que nos envolve,
nos sobraquece e torna enlouquecidos,
quando olhamos vemos as flores a explodir
abrindo o luminoso precipício
das hormonas dos corpos, a que é uso dar-se nomes
tal tais como amor, amour, libe love, etc.
e é exactamente o mesmo que abelha que os estames
faz às flores, diria um biólogo,
da flor trazem ao cálice, diria,
ressalvando as devidas diferenças
para não irritar os exaltadossentimentais
que no momento vivem sem pensar devoram devorem a paixão
esse outro nome agora verdadeiro,
com o qual, primavera a primavera,
enganamos a morte com o fogo
retirado do sol que nos aquece.
No mais, o comezinho Quanto ao mais, o vulgar das saladas,
a casa que dir-se-ia ser o mundo inteiro,
as pessoas que estão fartas de nós
e que partem connosco o dia-a-dia
e a quem só anedotas nos irmanam
no deserto de pó e corredores
das incontáveis fábricas de sílex
tudo isso vale mais que não nos força a procurar
um novo entendimento, da palavraao precipício,
paixão, amor, amour, libe love, etc.
talvez a lua e um lume que durassem durasse
e que os olhos tivessem de outro rosto outros olhos.
Respondi então que as musas andam hoje
por bares e cafés, que em nenhuma cidade
sei de um bar com o nome Fonte de Castália
e que de noite
vão para as discotecas
onde ninguém as pode ver senão
a dançar com os outros e a beber cerveja,
que as noites suburbanas são insuportáveis
de vómitos e lixo.
Como quereria ela que eu buscasse
outra musa nos coutos da cidade,
parnasos violados
de carros, telemóveis e desprezo
por quem escreve versos,
só falta que nos chamem
idiotas da vida.
Sem ter mais argumentos,
livrou-se: as musas eram só ficção,
evitando como é seu hábito
olhar-me frontalmente nestas coisas
e mandando recados
contrários aos de Euterpe e banindo Eros,
já que falo de musas e de mitos.
E retorqui: ficção por ficção mais me vale
apelar à memória
e não ficar sozinho sem tema para versos.
Perguntei-lhe se ainda se lembrava
da miúda que eu vira
passava de dez anos
e que lhe tinha contado ser
de todas a mais linda que encontrara
nos caminhos do grande mundo,
íamos no comboio para Weert,
os dois, eu e Jiang Li, a Belo Rio.
Que se lembrava, sim,
sem ligar a Jiang Li,
etereamente simples
de blusa branca e jeans.
Não dissemos mais nada, e hoje o comboio
avança sem cessar, dias e noites,
levando Jiang Li pela grande planície,
sem nunca, nem mesmo hoje, lhe ter feito um verso.
© as musas esqueléticas
Rascunho 30.5.04
Disse-lhe Respondi então que as musas andam hoje
pelas cervejarias por bares e cafés, que em nenhuma cidade
sei de um bar com o nome Fonte de Castália
e que de noite
vão para as discotecas
onde ninguém as pode ver senão
a dançar com os outros e a beber cerveja,
continuando a beber cerveja,
e que as noites urbanas suburbanas são insuportáveis
de vómitos e esperma lixo.
Como quereria ela que eu buscasse
outra musa nos coutos da cidade,
parnasos violados
de carros, telemóveis e desprezo
por quem escreve versos,
só falta que nos chamemquebra de versoidiotas da vida
idiotas da vida.
Sem ter mais argumentos,
respondeu-me que as musas são ficção,
disse-melivrou-se as musas serem eram só ficção
evitando como é seu hábito
olhar-me frontalmente nestas coisas
e mandando recados
inversos contrários aos do amor de Euterpe e banindo Eros,
já que falo de musas e de mitos.
passados e actuais como os sonhos.
E retorqui: ficção por ficção mais vale
convocar as lembranças doces
apelar à memória
e não ficar sozinho sem tema para versos.
Perguntei Perguntei-lhe se ainda se recordava lembrava
da miúda que eu vira
passava de dez anos
e que lhe tinha contado ser
de todas a mais bela linda que encontrara
nos caminhos do grande mundo
íamos no comboio para Weert,
Jiang Li, a Belo Rio, e eu
os dois, eu e Jiang Li, a Belo Rio.
Disse que Que se lembrava, sim,
sem ligar a Jiang Li,
etereamente simples
de blusa branca e jeans.
Não dissemos mais nada, e hoje o comboio
avança sem cessar dias e noites,
levando Jiang Li pela grande planície,
sem nunca, nem mesmo hoje, lhe dedicar ter feito um verso.
Segues o teu caminho das manhãs
que um dia me mostraste confiante
e levas a flor negra que em nós nasce
e cresce no teu peito e não te larga.
Não sei se dás por ela. Sentir, sente-la,
e não queres pensar. Inquietas-te,
sabe-la uma ameaça, flor escura
que de ti se alimenta e torna urgente
que os dias se resolvam. Avoluma-se
por entre as tuas veias e de noite
abafa-te de tanta solidão.
Do teu quarto não se ouve a vida urbana,
e o silêncio da serra não é mais
a extensão de memórias e palavras
que lentamente sobem luminosas
do corpo para as mãos e para os lábios.
Na tua insónia queres abranger
essa flor que se torna um punho ardente,
e buscas em tratados um remédio
arrumado na tua estante há séculos,
sem notares que os sábios desconhecem
a angústia e, delirantes como deuses
criados pela fome mais extrema,
não podem socorrer-te nos seus livros,
se falseiam a escura flor do tempo.
Talvez um dia entendas o que conto
sobre essa flor que em mim também cresceu,
sem que nela te fale, só dizendo:
vê no mar como brilha o que é eterno.
© as musas esqueléticas
Rascunho 27.5.04
A FLOR DO TEMPO
Segues o teu caminho das manhãs
que um dia me mostraste confiante
e levas a flor negra que em nós nasce
e se alojou cresce no teu peito e não te larga.
Não sei se dás por ela, sentir. Sentir, sente-la
Mas não raciocinas queres pensar. Inquietas-te
Sabe-la uma ameaça, flor escura
que de ti se alimenta e restringe e torna urgente
que o tempo se resolva, os dias se resolvam. e cresce em ti Avoluma-se
por entre as tuas veias e de noite
abafa-te de tanta solidão.
Do teu quarto não se ouve a vida urbana
e o silêncio da serra não é mais
a extensão de memórias e palavras
que lentamente sobem luminosas
do corpo para as mãos e para os lábios
e completam a vida quando há paz.
E na Na tua insónia procuras a semântica queres perceber abranger
dessa essa flor que se torna um punho ardente
e buscas em tratados um remédio
escondido arrumado na tua estante há séculos
sem notares que os sábios desconhecem
a angústia eque deliram, delirantes como deuses
criados pela fome mais extrema,
sem poderem valer-te nos seus livros,
mentindo sobre se falseiam a escura flor do tempo que trazes do tempo.
Talvez um dia entendas o que conto
sobre essa flor que em mim também cresceu
sem que nela te fale, só dizendo:
vê no mar como brilha o que é eterno.
Vive-se equidistante do silêncio
e de anseios que surgem no horizonte.
Anseios, barcos brancos e velozes
diante da famélica loucura
em nossas mãos vazias quase sempre.
A face que se toca é só o sonho.
Vêm as coisas práticas
e arrumam-se os retratos da carteira
na primeira gaveta que se encontra,
tão depressa a cidade nos devora
e a sua grande urgência.
Se acaso a não houvesse, os automóveis
partiriam daqui, e os ocupantes,
febris de intenso trânsito, convulsos de ódio,
de semáforos verdes e vermelhos
nos olhares que cruzam,
iriam à procura de barcos velozes
no horizonte do mar,
sem mais a equidistância que haveria
de torná-los às ruas como agora.
© as musas esqueléticas
Rascunho 26.5.04
Vive-se equidistante dos anseios do silêncio
e de anseios que surgem no horizonte e do silêncio,.
anseios Anseios, barcos brancos e velozes
diante da famélica loucura
em nossas mãos vazias quase sempre.
A face que se toca é só um o sonho.
Vêm as coisas práticas
e arrumam-se os retratos da carteira
na primeira gaveta que se encontra,
tão depressa a cidade nos devora
e a sua grande urgência.
Se acaso a não houvesse, os automóveis
partiriam daqui, e os ocupantes,
febris de tanto intenso trânsito, frementes de ódio,
e de semáforos verdes e vermelhos,
iriam à procura dos de barcos velozes
no horizonte do mar
sem mais a equidistância de silêncio que haveria
e de sonhos ardentes, que haveria
de torná-los às ruas — como agora.
Não me ofereças lírios,
traz-me das rosas bravas
que te dei e esqueceste
onde as fui encontrar
colhidas para sempre,
se existe todo o sempre
e se existem os lírios,
flores de maus poemas
mudadas em metáforas
de saudade e velórios.
Que nada se resuma
a lírios e a palavras,
que o gesto de colher
aquelas rosas bravas
a que chamaste silvas
nos baste a ti e a mim,
e ao passares por elas
cada dia as recordes,
rosas bravas não são
os lírios das metáforas,
rosas bravas no olhar
tão longe dos poemas.
© as musas esqueléticas
Rascunho 25 e 26.5.04
Não me ofereças lírios,
traz-me das rosas bravas
que te dei e esqueceste
quando onde as fui encontrar
colhidas para sempre,
se existe todo o sempre
e se existem os lírios,
flores de maus poemas
mudadas em metáforas
de saudade e velórios.
Que nada te resuma
a lírios e a palavras,
que o gesto de colher
aquelas rosas bravas
a que chamaste silvas
nos baste a ti e a mim,
e ao passares por elas
cada dia as recordes,
rosas bravas não são
os lírios das metáforas,
rosas bravas no olhar
tão longe dos poemas.
Quando este clamor branco se interpõe
e estende a fria luz sobre a cidade,
avivando os contornos estrangeiros
das casas e das ruas, e as flores e árvores
retomam o sentido inicial,
que é tudo ser o que é, e não mais que isso,
deserto o coração do que se amava
como se fosse o tempo derradeiro,
e nada mais houvesse que abandono
ou pena sem remédio, perdição
dos momentos alegres, recordadas
bocas e mãos na face dantes nossa,
quando este clamor branco se interpõe
— dizíamos —, e mais nenhuma luz
adoça a areia rude em nosso olhar,
morremos outra vez todas as vezes
já tidas dessa morte acumulada,
que é para assim morrer que se nasceu,
indo por entre as árvores urbanas,
sozinhos com momentos na memória.
© as musas esqueléticas
Rascunho 20.5.04
Quando este clamor branco e mudo se interpõe
e estende a sua luz sobre a cidade,
avivando os contornos estrangeiros,
das casas e das ruas, e as flores e árvores
retomam o sentido inicial
que é tudo ser externo ao que se mira o que é, e não mais que isso,
vazio deserto o coração do que era amado se amava
como se fosse o dia tempo derradeiro
e nada mais houvesse que amargura abandono,
ou pena sem remédio, perdição
dos momentos alegres, recordados recordadas
mãos e olhos numa face que era a nossa,
bocas e mãos na face dantes nossa,
quando este clamor branco e mudo se interpõe
se interpõe, — ia dizendo dizíamos —, e mais nenhuma luz adoça
adoça a infindável areia rude em nosso olhar,
morremos outra vez todas as vezes
já tidas dessa morte acumulada,
que é para assim morrer que se nasceu,
caminhando indo por entre as árvores urbanas,
sozinhos, com momentos na memória.
Eu sei que não te importas se nos rimos,
se esquecemos as máscaras e os livros
com que se finge a vida e a luz.
Porque a luz é cá fora que cintila,
e já não sei de nada
que valha o sol de Maio e as suas árvores,
em cuja sombra dançam vultos brancos,
enlaçando-se e rindo como nós.
© as musas esqueléticas
Rascunho 17.5.04
Eu sei que não te importas se nos rimos,
se esquecemos as máscaras e os livros
de que não se constrói a vida com que se finge a vida e a luz.
e nos quais procuramos uma luz
Porque a luz é cá fora que cintila,
e já não sei se um bom poema de nada
que vale valha este o sol de Maio e as suas árvores,
em cuja sombra dançam vultos brancos,
enlaçando-se e rindo como nós
Vinham os dois da infância,
trazendo quanto tinham aprendido
sobre ninhos e o tempo das amoras
nas margens a montante
de peixes que brilhavam
e de águas que corriam para longe
com barcos de cortiça, e não sei
se de papel: invento assim
o horizonte que as águas lhes seriam
a correr para o mar;
e traziam imagens de outras terras
que lentamente foram esgotando,
com o devir dos anos transformadas
na percepção do olhar,
expulsos das cidades e do campo
por suas mesmas mãos
e também inocentes desse acaso,
volvendo numa espécie de destino
a dorida beleza acumulada
que tem de libertar-se por lhes ser
sempre um excesso, salvo quando
não a pensam beleza
e mergulham o rosto na folhagem
das árvores de Maio,
sentindo tão-somente o seu frescor
e a brisa luminosa;
e agora no lugar onde respiram,
longe de quanto foram e perderam
ou não quiseram,
uma trompete evoca
a voz de Miles Davis,
e entrega-os ao clamor da tarde,
remindo-lhes o peso do passado
e calando a toada melancólica.
© as musas esqueléticas
Rascunho 16 e 25.5.04
Vinha cada um da infância até ali,
trazendo quanto tinham aprendido
sobre ninhos e o tempo das amoras
nas margens a montante
de peixes que brilhavam
e de águas que corriam para longe
com barcos de cortiça, e não sei
se de papel,: invento assim
o horizonte que as águas lhes seriam
a correr para o mar;
e traziam imagens de outras terras
que lentamente foram esgotando,
com o devir dos anos transformadas
na densa percepção do olhar dos dois,
expulsos das cidades e do campo
por suas mesmas mãos
e também inocentes desse acaso,
que torna como um fado volvendo numa espécie de destiino
a dorida beleza acumulada
que tem de libertar-se por lhes ser
sempre um excesso, salvo quando
não a pensam beleza
e mergulham o rosto na folhagem
das árvores de Maio
sentindo tão somente o seu frescor
e a brisa luminosa;
e agora ali, no sítio onde chegaram, no lugar onde respiram,
longe de quanto foram e perderam
e perderam avanço de nove espaços ou não quiseram,
uma trompete evoca como deles
a voz de Miles Davis
e entrega-os ao clamor da tarde,
remindo-lhes os seus passados o peso do passado
e calando a toada melancólica.
Não sei de onde lhe veio a ideia dessa casa
no meio de colinas verdes e do vento,
casa de sol e cal, sozinha, as árvores
orlando campos de erva e de silêncio;
talvez da luz nos lagos árabes,
e também das estradas por onde chegara
aos povoados brancos do Sul; e da urbe
que escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas e de miúdos
com olhos de maldade subitamente adulta
entre a riqueza vária que cintila;
e de anseios e castas e puríssimas
paixões e experiência acumulada, a dor,
os rostos da família e o tempo que dilui
os retratos na sala da velha moradia;
ou só por respirar de encontro a um novo
dia sem mais futuro que ser céu e terra,
a que chamou a sua breve eternidade.
© as musas esqueléticas
Rascunho 15.5.04
Não sei de onde lhe veio a ideia dessa casa
no meio de colinas verdes e do vento,
casa de sol e cal, sozinha, as árvores
orlando campos de erva e de silêncio;
talvez da luz nos lagos e repuxos dos árabes,
e também das estradas por onde chegara
aos povoados brancos do Sul; e da urbe
que escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas e de miúdos
com olhos de maldade subitamente adulta
entre a vária riqueza vária que cintila;
e de anseios e castas e puríssimas
paixões e experiência, a dor acumulada, a dor,
os rostos da família e o ácido que oxida o tempo que dilui
os retratos nas salas na sala da velha moradia;
ou só por respirar de encontro a um novo
dia sem mais futuro que ser céu e terra,
a que chamou a sua breve eternidade.
EM NOME
Não sei de onde lhe veio essa casa de cal
no meio de colinas verdes e do vento,
talvez de uma paisagem renascentista ao fundo
e do sol e da luz na água de Alhambra,
e também das estradas por onde chegara
aos povoados brancos do sul, e da urbe
que escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas
e de miséria hiante de miúdos,
de anseios e de castas e
puríssimas paixões e experiência,
a dor acumulada do princípio,
os rostos da família morta e o ácido
que oxida os retratos
nas paredes ruídas da velha moradia.
Estou certo, ninguém sabe, nem ele,
de onde nasceu a ideia dessa casa irreal
que hoje quer povoar por ter sabido
que a eternidade é breve, e ainda assim
ser necessário havê-la e reparti-la
para que nada fique por cumprir.
Só desse modo é possível, confessou,
partilhar os poemas que mais se amam,
e dividir o olhar
com outro olhar o olhar as árvores,
antes que a eternidade a todos nos desminta.
© as musas esqueléticas
Rascunho 12.5.04
Não sei de onde lhe veio essa casa de cal
no meio das de colinas verdes e do vento,
talvez de uma paisagem renascentista ao fundo
e do sol e da luz na água de Alhambra,
de algum verso ecoado de Al Mutamid, o rei,
e também das estradas de onde vira
os povoados brancos do sul, e a cidade da urbe
que percorrera escura escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas exploradas
e da de miséria hiante dos de miúdos,
de anseios e de castas e
puríssimas paixões e experiência,
a dor acumulada do princípio,
os rostos da família morta e o ácido
que oxida os retratos na parede.
nas paredes da velha moradia.
Estou certo, ninguém sabe seguramente, nem ele,
de onde nasceu a ideia dessa casa irreal
que hoje diz habitar povoar por ter sabido
que a eternidade é breve, e ainda assim
ser necessário havê-la e reparti-la
para que nada fique incompleto por cumprir.
Só aí desse modo lhe é possível, confessou,
ler em paz partilhar os poemas que mais ama se amam,
ouvir os seus Cds e repartir dividir o olhar
com outro olhar o olhar nas as árvores,
antes que a eternidade se a todos os nos desminta.
Se puderes, vai ver os freixos à
Praça de Londres. Nada é mais limpo
que o sol que rumoreja na folhagem
e nada melhor temos que essa luz,
se a soubermos guardar como sabemos
para as palavras não ditas e os gestos
formados do silêncio. Depois filtra-se,
já o disse, no ardor com que se vive,
e torna-nos mais fundos face a face,
sem que ninguém suspeite na esplanada
dois seres tão anónimos haverem
estado ali e amado tanto os freixos,
como alguns vindos antes ou depois
sem deixar rasto de um poema
e que muito o ansiaram em seus nomes,
sem que isso nos revolva ou sequer lembre.
Vai, se puderes. A esta altura os táxis
dão início à corrida que transporta
o lado mais oculto de Lisboa
e a noite já se sente na esplanada.
Eu sei que somos de outro mundo e sei
sermos tanto do nosso como deste;
talvez por isso muito mais sejamos
das luzes que não tardam e do sol,
porque tudo nos pertence sem palavras,
e a tudo tanto amamos que escrevê-lo
seria muito pouco, comparado
ao sol nos freixos e às luzes de néon
urbanamente limpas, que é o mesmo
que ter em nós a abstracta humanidade,
sem querermos saber aonde levam
os táxis e os caminhos de Lisboa.
© as musas esqueléticas
Rascunho 8, 10 e 20.5.04
Se puderes, vai ver os choupos freixos, à
Praça de Londres. Nada é mais limpo
que o sol que rumoreja na folhagem
e nada melhor temos que essa luz
se a soubermos guardar como sabemos
para as palavras não ditas e os gestos
formados do silêncio. Depois filtra-se,
já o disse, no ardor com que se vive,
e torna-nos mais fundos face a face,
sem que ninguém suspeite na esplanada
dois seres tão anónimos haverem
estado ali e amado tanto os choupos freixos,
como alguns vindos antes ou depois
sem deixar rasto de um poema
e que tanto muito o ansiaram em seus nomes,
sem que isso nos subverta revolva ou sequer lembre.
Vai, se puderes. A esta altura os táxis
começam a dão início à corrida que transporta
a parte o lado mais oculta oculto de Lisboa
e a noite já se sente na esplanada.
Eu sei que somos de outro mundo e sei
sermos tanto do nosso como deste;
talvez por isso muito mais sejamos
das luzes que não tardam e do sol. ,
Porque porque tudo nos pertence sem palavras
e a tudo tanto amamos que escrevê-lo
seria muito pouco, comparado
ao sol nos choupos freixos, e às luzes de néon
urbanamente limpas, que é o mesmo
que sentir uma sentirmos a ser ter em em nós a abstracta humanidade,
sem querermos saber aonde levam
os táxis e os caminhos de Lisboa.
Não precisas de estar aquém
da noção de pecado se inexiste
nem tão-pouco passá-la se te pesa.
No entanto
quem irá percorrer esta cidade
de hoje a duzentos anos?
Isso não te inquieta, não te chama?
Mas nada, eu sei, admite
se falseiem palavras transparentes
ou motivo que as force e desespere,
se tanto lhes queremos.
Vê como voam alto as aves migratórias.
© as musas esqueléticas
Rascunho 5.5.04
ALHEEMO-NOS
Diz-me Di-lo sempre que queiras. Não é preciso
ficar aquém das nossas espessas fronteiras
Não precisas de estar aquém
da noção do de um pecado nunca cometido que se inexiste,
nem tão-pouco passá-las passá-la se te pesa.
Se queremos a doce mansa combustão
dos dias permitidos, alheemo-nos.
No entanto
Quem> quem irá percorrer esta cidade
de hoje a duzentos anos?
Isso não te inquieta, não te chama?
Mas nada, eu sei, admite
se falseiem as palavras mais puras transparentes, ou motivo que as force
nemou e desespere,
se tanto lhes queremos.
Vê como voam alto as aves migratórias.
É no exterior que o sol vive e à noite as cidades brilham, e a mulher que hoje passou na sombra da catedral, a mulher também é exterior no seu corpo de obscura fome, e a planície, e a estrada que falta percorrer: no rádio do carro ouve-se uma sinfonia de Mahler. Só o que Mahler diz não é exterior, e por isso deve ter sofrido e nós sofremos a escutá-lo. E se pensarmos que a catedral nunca foi da cor do céu, mais ainda havemos de sofrer. Se a olharmos, se soubermos que é feita de calcário, arrancada da terra para se elevar a um deus como antes os montes e as árvores, não sofreremos. Só nas entranhas prospera ano a ano o cancro da amargura. Quando estiveres completamente só, não te perguntes, não te espelhes no sofrimento dos outros, não ouças música. Decide apenas sobre as coisas breves e não te esqueças de regar os miosótis.
© as musas esqueléticas
Rascunho 22.04 e 5.05.2004
NÃO TE ESQUEÇAS DE REGAR OS MIOSÓTIS
OS MIOSÓTIS
É no exterior que o sol vive e à noite as cidades brilham, e a mulher que hoje passou na sombra da catedral, a mulher também é exterior no seu corpo de obscura fome, e a planície, e a estrada que falta percorrer, e: o no rádio no carro que passa ouve-se uma sinfonia de Mahler. Só o que Mahler diz não é exterior, e por isso deve ter sofrido e nós sofremos a escutá-lo. E se pensarmos que a Ccatedral não é azul nunca foi da cor do céu, mais sofremos ainda ainda havemos de sofrer. Se a olharmos, se soubermos que é feita de calcário dúctil, arrancado da terra para se elevar a um deus, como antes os montes ou as árvores, não sofreremos. Só nas entranhas prospera ano a ano o cancro da amargura. Quando estiveres completamente só, não te perguntes, não te espelhes no sofrimento dos outros, não ouças música. Decide apenas sobre as coisas breves e não te esqueças de regar os miosótis.
De mãos e lábios o corpo se ilumina.
© as musas esqueléticas
Rascunho 20.04.04
DENSIDADE
De mãos e lábios o corpo se ilumina,.
deliquesce a elipse de langor,
vai-se o mundo e com ele
tudo o que em nós havia se condensa,
se anula e desvanece,
e surge o esquecimento
que de noites sozinhas nos fizemos.
Às vezes é por isso que as janelas fechadas
se acendem de repente
e se ouve na cidade um grito,
e quanto fomos passa a ser
o que sempre quiséramos,
inteiros como deuses
na alegria que funda nos concentra.
Não é atingir o sol, é desejar-lhe sereno a luz real, a claridade que embriagava outrora os místicos, tomando-a por Deus em noites subversivas. É ver o abeto e as glicínias que o enleiam para ascender ao zénite. É ser tudo sem ser mais que os olhos têm — e as mãos, e os lábios: o abeto e as glicínias, abraçados sem passado nem futuro, só a vida que perene deles emana e sustenta com seu hálito o coração.
© as musas esqueléticas
Rascunho 17 e 19.04.04
Não é querer atingir o sol, é desejar-lhe sereno a luz real, a claridade que embriagava outrora os místicos, tomando-a por Deus nas suas em noites subversivas. É ver o abeto e as glicínias que o enleiam para ascender ascenderem ascender ao zénite. É ser tudo sem ser mais que os olhos têm, — e as mãos, e os lábios: o abeto e as glicínias, abraçados sem passado nem futuro, só a vida que perene deles emana e sustenta com o seu hálito o coração.
Escrevem-me do Norte, lá de cima
onde o mar se acinzenta;
dizem do tempo agreste e luminoso,
os choupos e que tantos são os corvos,
e creio nesse limpo olhar
ter sido meu um dia quando
uma luz diferente me varria
cidades sedentárias da memória.
Não sabem que estou sempre à beira de partir,
sempre à espera de ver por esses mesmos olhos
o que já vi e trago em mim,
ondas do mar cinzento, choupos, corvos,
e uma vontade igual de dissolver-me,
de ser ninguém na luz coada,
o divino que anseia a fuga
face a deuses outrora vivos que falharam.
© as musas esqueléticas
Rascunho 17, 18, 19 e 20.04.04
Falam-me Escrevem-me lá do norte Norte, lá de cima
onde o mar se acinzenta,
dizem da primavera do tempo agreste e luminosa luminoso,
os choupos e que tantos são os corvos,
e creio firme nesse limpo olhar
ter sido meu um dia quando
uma luz diferente me varria
cidades sedentárias da memória.
Não sabem , que estou sempre à beira de partir,
sempre à espera de ver por esses mesmos olhos
o que já vi e trago em mim,
ondas do mar cinzento, choupos, corvos,
e uma vontade igual de dissolver-me,
de ser ninguém naquela na luz filtrada coada,
o divino que impede o corpo anseia o gesto a fuga
face a frente a< face a deuses de outrora outrora vivos vivos antigos que falharam.
Quando as nuvens agora vão voando
para um lugar que nunca foi o meu
e que somente existe pela ausência,
segundo a qual o sol aplana imagens
e lhes sorve o sentido se reais,
então é como se a vida desistisse,
o que a esperasse fosse um clamor branco
e o visse da janela, fatal e último.
O movimento urbano não é nada,
nem a mulher que olhei é mais do que
viver a mãe, e a mãe, uma outra mãe,
e sucessivamente assim até
que Deus nos explicasse a matemática
destas sem razões todas que disseram
na catequese ter usado, ilógicas
como a nossa vontade de ser mais.
Talvez pense hoje assim por estar só,
por esquecer o amor, a convicção
de que o amor pode ainda nos remir.
Por isso sei, sabemos, da ciência
dos sonhos e fracassos, que a esperança
é sempre bom havê-la, nem que seja
enganarmo-nos dela, consumindo
instante a instante o nosso tempo, a luz.
© as musas esqueléticas
Rascunho 12.04.04
Quando as nuvens voando vão agora agora vão voando
para um país lugar que nunca foi o meu,
e que tão-só somente existe pela ausência
segundo a qual o sol aplana imagens
e lhes sorve o sentido quando plenas se reais,
então é como se a vida desistisse ,
e o que a esperasse fosse um clamor branco
que e da janela o visse o visse da janela, fatal e último.
O movimento urbano não é nada,
nem a mulher que violhei é mais do que
viver a mãe, e a mãe, uma outra mãe,
e sucessivamente assim até
que Deus nos explicasse a matemática
destas sem razões todas que disseram
na catequese ter usado, ilógica
como a nossa vontade de ser mais.
Talvez pense hoje assim por estar só,
e esquecer-me do o amor, a convicção
de que alguém o amor pode ainda nos remir.
Por isso sei, sabemos, na ciência
de dos sonhos e fracassos, que a esperança
é sempre bom havê-la, nem que seja
enganarmo-nos dela, consumindo
instante a instante o nosso tempo, todo o sol a luz.
Se olhares para dentro de ti,
vês as ruas desertas de vestígios
e os prédios que habitaste
limitarem pracetas sem ninguém,
sem velhos exilados e sem pombas,
de estátuas derruídas,
e os idos, os amigos que perdeste,
as imagens da infância, o rio, o riso,
a casa, a tua mãe que morreu cedo,
os deuses que julgavas
serem em ti a eterna juventude,
o amor que te entristece haver perdido.
Vês o que não te salva
se te fitares assim, se não vires o sol
no casario branco
iluminar os olhos e devolver
às nítidas imagens do presente
as árvores, a estrada, a luz,
que só com elas podes respirar.
© as musas esqueléticas
Rascunho 10.04.04
Se olhares para dentro de ti
vês as ruas desertas de vestígios
e os prédios que habitaste e delimitam
uma praça vazia
de estátuas desmontadas
limitarem pracetas sem ninguém,
sem os seus reformados velhos exilados e sem pombas,
de estátuas derruídas,
e os idos, os amigos que perdeste,
as imagens da infância, o rio, o riso, a casa, a casa, a tua mãe que morreu cedo,
a tua mãe morreu cedo demais
e os deuses que julgavas
serem em ti a eterna juventude,
o amor que te entristece haver perdido.
É o que vês Vês o que não te salva,
se o tiveres te fitares assim, se não vires o sol
no casario branco além atrás das árvores
clarear-te por dentro
iluminar os olhos e devolver
às nítidas imagens do presente
as árvores, a estrada, a luz,
com que somente só com elas podes respirar.
O lindo ser dos vossos olhos belos
Luís de Camões
É por dentro do sono que se tem o ser,
o rosto na almofada, o corpo solto,
e aquilo a que chamamos alma flui
da exigência do amor
e se entrega por trás das gelosias,
num leito que de si mesmo se ausenta.
É aí, contemplando, que se tem o ser,
o mais profundo brilho, as luzes
perdidas na cidade
em luta no seu quarto
que se alargou agora do passado ao futuro,
fora do tempo breve, respirando.
© as musas esqueléticas
Rascunho 7, 9.04. e 5.5.2004
É por dentro do sono que se tem o ser,
o rosto na almofada, o corpo solto,
e aquilo a que chamamos alma flui
da exigência do amor
e entrega-se se entrega por trás das gelosias,
num leito que de si mesmo se ausenta.
É aí, contemplando, que se tem o ser,
o mais profundo brilho, as luzes impossíveis
perdidas na cidade,
na em luta do no seu quarto de medidas estritas,
que se alargou agora do passado ao futuro,
fora do tempo breve, respirando.
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Antonio Machado
Não sei porque se some num caminho sem passos,
porque lhe devora a sombra um sol que é só escuro,
porque se arruina assim. É de silêncio o sal
que vai roubando o som às cordas dedilhadas
em bairros de verão, quando a juventude era
o malmequer que vi. Iluminava ainda
há pouco a noite toda, mais fulgente que a Lua.
Se pudesse dizer-lhe que era um sol, diria.
Cuido que não me ouvisse: fechou-se numa sala
e só escuta o tempo, não acredita em mim,
e o vento desolado já lhe não torna a imagem
que os dias vão sorvendo até chegar ali.
© as musas esqueléticas
Rascunho 5.04.04
Não sei porque se some num caminho sem passos,
porque lhe devora a sombra um sol que é só escuro,
porque se arruina assim. É o de silêncio o sal
que vai calando roubando o som das às cordas dedilhadas
em bairros de verão, quando a juventude era
o malmequer que vi. Iluminava ainda
há pouco a noite toda, mais fulgente que a Lua.
Se eu pudesse dizer-lhe que era um sol, diria.
Cuido que não me ouvisse: fechou-se numa sala
e só escuta o tempo, não acredita em mim,
e o vento desolado já lhe não torna a imagem
que os dias vão delindo sorvendo até chegar ali.
Não os olhos que ferem a distância
no interior da noite
e se queimam nas chamas;
ao contrário, o segredo na lembrança
de umas luvas que guardam
do gelo aquelas longas mãos.
Que te seja bastante.
A geada no escuro torna alvo o campo,
e na lareira o lume te recorde
como arde branda a noite no teu coração.
© as musas esqueléticas
Rascunho 3 e 4.04.04
Não os olhos que vazam ferem a distância
no interior da noite
e se queimam nas chamas do seu frio;
ao contrário, o segredo na memória lembrança
de umas luvas que guardam
do gelo em riste lá de fora aquelas longas mãos.
Que te seja o bastante.
A geada no escuro torna alvo o campo,
e na lareira o lume te recorde
como arde branda a noite no teu coração.