Miséria da Poesia
A lenta gestação de uma metáfora
ou mesmo esse tremor que às vezes resta
depois de ter escrito uns quantos versos
abonam uma vida? Sei que não.
Tão-pouco ignoro, embora não me sendo
chave de uma existência, que as palavras
dirão que quem dispôs sua harmonia
soube ordenar um mundo. E isso basta?
Os anos vão passando e sei que não.
Há qualquer coisa grande nesta luta
e de algum modo tenho
a difusa certeza de que existe
un verso que contenha esse segredo
vulgar e abominável numa rosa:
é o rosto da morte a formosura.
Se encontrasse esse verso, bastaria?
Talvez não. A verdade seria tanta
quanta para criar um mundo e dar-lhe
uma cor nova à noite bem como à lua
um círculo de fogo, e umas pupilas
e uma alma a Galateia, e mais um mar
de neve nos desertos? Sei que não.
© Tradução de as musas esqueléticas
Miseria de La Poesía
La lenta concepción de una metáfora
o bien ese temblor que a veces queda
después de haber escrito algunos versos
¿justifican una vida? Sé que no.
Pero tampoco ignoro que, aun no siendo
cifra de una existencia, esas palabras
dirán que quien dispuso su armonía
supo ordenar un mundo. ¿Y eso basta?
Los años van pasando y sé que no.
Hay algo de grandeza en esta lucha
y en cierto modo tengo
la difusa certeza de que existe
un verso que contiene ese secreto
trivial y abominable de la rosa:
la hermosura es el rostro de la muerte.
Si encontrase ese verso, ¿bastaría?
Tal vez no. Su verdad, ¿sería tanta
como para crear un mundo, para darle
color nuevo a la noche y a la luna
un anillo de fuego, y unos ojos
y un alma a Galatea, y unos mares
de nieve a los desiertos? Sé que no.
Respondi então que as musas andam hoje
por bares e cafés, que em nenhuma cidade
sei de um bar com o nome Fonte de Castália
e que de noite
vão para as discotecas
onde ninguém as pode ver senão
a dançar com os outros e a beber cerveja,
que as noites suburbanas são insuportáveis
de vómitos e lixo.
Como quereria ela que eu buscasse
outra musa nos coutos da cidade,
parnasos violados
de carros, telemóveis e desprezo
por quem escreve versos,
só falta que nos chamem
idiotas da vida.
Sem ter mais argumentos,
livrou-se: as musas eram só ficção,
evitando como é seu hábito
olhar-me frontalmente nestas coisas
e mandando recados
contrários aos de Euterpe e banindo Eros,
já que falo de musas e de mitos.
E retorqui: ficção por ficção mais me vale
apelar à memória
e não ficar sozinho sem tema para versos.
Perguntei-lhe se ainda se lembrava
da miúda que eu vira
passava de dez anos
e que lhe tinha contado ser
de todas a mais linda que encontrara
nos caminhos do grande mundo,
íamos no comboio para Weert,
os dois, eu e Jiang Li, a Belo Rio.
Que se lembrava, sim,
sem ligar a Jiang Li,
etereamente simples
de blusa branca e jeans.
Não dissemos mais nada, e hoje o comboio
avança sem cessar, dias e noites,
levando Jiang Li pela grande planície,
sem nunca, nem mesmo hoje, lhe ter feito um verso.
© as musas esqueléticas
Rascunho 30.5.04
Disse-lhe Respondi então que as musas andam hoje
pelas cervejarias por bares e cafés, que em nenhuma cidade
sei de um bar com o nome Fonte de Castália
e que de noite
vão para as discotecas
onde ninguém as pode ver senão
a dançar com os outros e a beber cerveja,
continuando a beber cerveja,
e que as noites urbanas suburbanas são insuportáveis
de vómitos e esperma lixo.
Como quereria ela que eu buscasse
outra musa nos coutos da cidade,
parnasos violados
de carros, telemóveis e desprezo
por quem escreve versos,
só falta que nos chamemquebra de versoidiotas da vida
idiotas da vida.
Sem ter mais argumentos,
respondeu-me que as musas são ficção,
disse-melivrou-se as musas serem eram só ficção
evitando como é seu hábito
olhar-me frontalmente nestas coisas
e mandando recados
inversos contrários aos do amor de Euterpe e banindo Eros,
já que falo de musas e de mitos.
passados e actuais como os sonhos.
E retorqui: ficção por ficção mais vale
convocar as lembranças doces
apelar à memória
e não ficar sozinho sem tema para versos.
Perguntei Perguntei-lhe se ainda se recordava lembrava
da miúda que eu vira
passava de dez anos
e que lhe tinha contado ser
de todas a mais bela linda que encontrara
nos caminhos do grande mundo
íamos no comboio para Weert,
Jiang Li, a Belo Rio, e eu
os dois, eu e Jiang Li, a Belo Rio.
Disse que Que se lembrava, sim,
sem ligar a Jiang Li,
etereamente simples
de blusa branca e jeans.
Não dissemos mais nada, e hoje o comboio
avança sem cessar dias e noites,
levando Jiang Li pela grande planície,
sem nunca, nem mesmo hoje, lhe dedicar ter feito um verso.
A Tua Musa
Convence-te primeiro de que te acha simpático,
de que se sente bem quando sair contigo.
Condu-la logo a casa, serve-lhe um par de copos
e, num dado momento, mordisca-lhe o pescoço.
Algumas vezes há-de querer ir para o quarto,
outras alegará uma indisposição
e outras há-de contar-te a vida por fascículos.
Mostra-lhe em cada caso a dose de carinho
que peçam os seus olhos. Sê generoso sempre.
Conserva-a a qualquer preço junto de ti.
Sem ela, a tua musa, não és ninguém, poeta.
© Tradução de as musas esqueléticas
Tu Musa
Convéncete primero de que le caes simpático,
de que lo pasa bien cuando sale contigo.
Llévala a casa luego, sírvele un par de copas
y, en un momento dado, mordisquéale el cuello.
Unas veces querrá pasar al dormitorio,
otras alegará una indisposición
y otras te contará su vida por entregas.
Muéstrale en cada caso la dosis de cariño
que te pidan sus ojos. Sé generoso siempre.
Trata de conservarla como sea a tu lado.
Sin ella, sin tu musa, no eres nadie, poeta.
Segues o teu caminho das manhãs
que um dia me mostraste confiante
e levas a flor negra que em nós nasce
e cresce no teu peito e não te larga.
Não sei se dás por ela. Sentir, sente-la,
e não queres pensar. Inquietas-te,
sabe-la uma ameaça, flor escura
que de ti se alimenta e torna urgente
que os dias se resolvam. Avoluma-se
por entre as tuas veias e de noite
abafa-te de tanta solidão.
Do teu quarto não se ouve a vida urbana,
e o silêncio da serra não é mais
a extensão de memórias e palavras
que lentamente sobem luminosas
do corpo para as mãos e para os lábios.
Na tua insónia queres abranger
essa flor que se torna um punho ardente,
e buscas em tratados um remédio
arrumado na tua estante há séculos,
sem notares que os sábios desconhecem
a angústia e, delirantes como deuses
criados pela fome mais extrema,
não podem socorrer-te nos seus livros,
se falseiam a escura flor do tempo.
Talvez um dia entendas o que conto
sobre essa flor que em mim também cresceu,
sem que nela te fale, só dizendo:
vê no mar como brilha o que é eterno.
© as musas esqueléticas
Rascunho 27.5.04
A FLOR DO TEMPO
Segues o teu caminho das manhãs
que um dia me mostraste confiante
e levas a flor negra que em nós nasce
e se alojou cresce no teu peito e não te larga.
Não sei se dás por ela, sentir. Sentir, sente-la
Mas não raciocinas queres pensar. Inquietas-te
Sabe-la uma ameaça, flor escura
que de ti se alimenta e restringe e torna urgente
que o tempo se resolva, os dias se resolvam. e cresce em ti Avoluma-se
por entre as tuas veias e de noite
abafa-te de tanta solidão.
Do teu quarto não se ouve a vida urbana
e o silêncio da serra não é mais
a extensão de memórias e palavras
que lentamente sobem luminosas
do corpo para as mãos e para os lábios
e completam a vida quando há paz.
E na Na tua insónia procuras a semântica queres perceber abranger
dessa essa flor que se torna um punho ardente
e buscas em tratados um remédio
escondido arrumado na tua estante há séculos
sem notares que os sábios desconhecem
a angústia eque deliram, delirantes como deuses
criados pela fome mais extrema,
sem poderem valer-te nos seus livros,
mentindo sobre se falseiam a escura flor do tempo que trazes do tempo.
Talvez um dia entendas o que conto
sobre essa flor que em mim também cresceu
sem que nela te fale, só dizendo:
vê no mar como brilha o que é eterno.
Vive-se equidistante do silêncio
e de anseios que surgem no horizonte.
Anseios, barcos brancos e velozes
diante da famélica loucura
em nossas mãos vazias quase sempre.
A face que se toca é só o sonho.
Vêm as coisas práticas
e arrumam-se os retratos da carteira
na primeira gaveta que se encontra,
tão depressa a cidade nos devora
e a sua grande urgência.
Se acaso a não houvesse, os automóveis
partiriam daqui, e os ocupantes,
febris de intenso trânsito, convulsos de ódio,
de semáforos verdes e vermelhos
nos olhares que cruzam,
iriam à procura de barcos velozes
no horizonte do mar,
sem mais a equidistância que haveria
de torná-los às ruas como agora.
© as musas esqueléticas
Rascunho 26.5.04
Vive-se equidistante dos anseios do silêncio
e de anseios que surgem no horizonte e do silêncio,.
anseios Anseios, barcos brancos e velozes
diante da famélica loucura
em nossas mãos vazias quase sempre.
A face que se toca é só um o sonho.
Vêm as coisas práticas
e arrumam-se os retratos da carteira
na primeira gaveta que se encontra,
tão depressa a cidade nos devora
e a sua grande urgência.
Se acaso a não houvesse, os automóveis
partiriam daqui, e os ocupantes,
febris de tanto intenso trânsito, frementes de ódio,
e de semáforos verdes e vermelhos,
iriam à procura dos de barcos velozes
no horizonte do mar
sem mais a equidistância de silêncio que haveria
e de sonhos ardentes, que haveria
de torná-los às ruas — como agora.
Não me ofereças lírios,
traz-me das rosas bravas
que te dei e esqueceste
onde as fui encontrar
colhidas para sempre,
se existe todo o sempre
e se existem os lírios,
flores de maus poemas
mudadas em metáforas
de saudade e velórios.
Que nada se resuma
a lírios e a palavras,
que o gesto de colher
aquelas rosas bravas
a que chamaste silvas
nos baste a ti e a mim,
e ao passares por elas
cada dia as recordes,
rosas bravas não são
os lírios das metáforas,
rosas bravas no olhar
tão longe dos poemas.
© as musas esqueléticas
Rascunho 25 e 26.5.04
Não me ofereças lírios,
traz-me das rosas bravas
que te dei e esqueceste
quando onde as fui encontrar
colhidas para sempre,
se existe todo o sempre
e se existem os lírios,
flores de maus poemas
mudadas em metáforas
de saudade e velórios.
Que nada te resuma
a lírios e a palavras,
que o gesto de colher
aquelas rosas bravas
a que chamaste silvas
nos baste a ti e a mim,
e ao passares por elas
cada dia as recordes,
rosas bravas não são
os lírios das metáforas,
rosas bravas no olhar
tão longe dos poemas.
O Mar
A acção de arremessar ao mesmo tempo
as cinzas ao mar de todos os cadáveres
que vagam pela bruma da História;
todavia essa cinza
unânime, já digo, em nada lhe alterava
o contínuo fluir:
lentas marés,
alada ondulação áspera
e as lendas graves da sua fúria.
Errabundo e cativo, porém sempre
com uma disciplina
perfeita: nebulosa e calculada.
Ouve-o como ruge:
o mar narcotizado pelas luas,
homérico, mutável, maquinal,
com enseadas de peixes
de olhos aterrados que o exploram
como os peixes às cores pensativos
exploram uma vez e outra vez e uma vez mais
o aquário pejado de palmeiras
e cofres de pirata em miniatura.
Tão flutuante
como é o pensamento,
fita-o
angustiado, azul indefinível,
asmático, magnífico e teatral,
ele,
que foge e invade
segundo o estranho método que tem
talvez algo a ver com os nossos ciclos
de razão e loucura, as duas faces
de uma mesma moeda que cai sempre de esquina .
Refúgio de seres silenciosos,
inesgotável mar de vaivém branco,
tão dado a todo o tipo de metáforas
que costumam lembrar-nos certas vezes
quanto nos parecemos com o mar.
© Tradução de as musas esqueléticas
El Mar
El hecho de arrojar a un mismo tiempo
las cenizas al mar de todos los cadáveres
que vagan por la bruma de la Historia;
aun toda esa ceniza
unánime, ya digo, en nada alteraría
su continuo fluir:
lentas mareas,
alado oleaje bronco,
y las leyendas graves de su furia.
Errabundo y cautivo, pero siempre
con una disciplina
perfecta: misteriosa y calculada,
óyelo cómo ruge:
el mar narcotizado por las lunas,
homérico, cambiante y maquinal,
con ensenadas de peces
de ojos aterrados que lo exploran
como los pensativos peces de colores
exploran una vez y otra vez y una vez más
el acuario cuajado de palmeras
y cofres de pirata en miniatura.
Igual de fluctuante
que nuestro pensamiento,
míralo,
angustiado de azul indefinible,
asmático, grandioso y teatral,
él,
que huye e invade
según un raro método que tiene
algo que ver quizás con nuestros ciclos
de razón y locura, esas dos caras
de una misma moneda que cae de canto siempre.
Refugio de los seres silenciosos,
inagotable mar de vaivén blanco,
tan dado a todo tipo de metáforas
que suelen recordarnos ciertas veces
en lo mucho que somos como el mar.
Problemas de Geografia Pessoal
Nunca sei despedir-me de ti, fico sempre
com o frio de alguma palavra que não disse,
com um mal-entendido a recear,
o vazio de torpe inexistência
que às vezes, gota a gota, se converte
em desesperação.
Nunca sei despedir-me de ti, porque não sou
o que em viagem passa pela gente,
o que vai de aeroporto em aeroporto,
o que olha os automóveis em direcção contrária,
indo para a cidade
onde acabas de chegar.
Nunca sei despedir-me, porque sou
um cego que tenteia pelo túnel
das tuas mãos e lábios quando dizem adeus,
um cego que tropeça nos mal-entendidos
e com essas palavras
que não se sabe articular.
Desterrado do amor,
nunca posso afastar-me de tudo quanto és.
Num vazio de torpe inexistência
vou-me de mim
a caminho do nada.
© Tradução de as musas esqueléticas
Problemas de Geografía Personal
Nunca sé despedirme de ti, siempre me quedo
con el frío de alguna palabra que no he dicho,
con un malentendido que temer,
ese hueco de torpe inexistencia
que a veces, gota a gota, se convierte
en desesperación.
Nunca se despedirme de ti, porque no soy
el viajero que cruza por la gente,
el que va de aeropuerto en aeropuerto
o el que mira los coches, en dirección contraria,
corriendo a la ciudad
en la que acabas de quedarte.
Nunca sé despedirme, porque soy
un ciego que tantea por el túnel
de tu mano y tus labios cuando dicen adiós,
un ciego que tropieza con los malentendidos
y con esas palabras
que no saben pronunciar.
Extrañado de amor,
nunca puedo alejarme de todo lo que eres.
En un hueco de torpe inexistencia,
me voy de mí
camino a la nada.
Cronos volta montado em seu cavalo
pelo céu, preenchendo o horizonte,
e limita a vida ao pulsar do sol —
o espaço que vai do dia à
noite deste modo sucessivo,
matemático e cru só na aparência.
Volta, pois é aceite por não ser
o que outros julgam ser o que não é,
um comedor de filhos odiado,
uma faca na pele que abre rugas
e as afunda, por onde desaguam
os dias solitários que resumem
o curso descendente de quem quer
salvar-se no esplendor, não sendo mais
aqueles que recordam haver sido.
Por mim, dou-lhe as rosas, dou-lhe os cedros
e o abeto que vejo ali na janela;
dou-lhe também o rio onde vivi,
os pássaros, os peixes, os segredos
da infância escondidos na folhagem,
a casa de meus pais como a guardei;
dou-lhe os livros, o mundo que corri
e as mulheres que amei e que partiram
sem dizer adeus, sempre decididas,
solvendo-se em silêncio, só lembranças;
dou-lhe mesmo as palavras mais amadas
dos poemas que escrevo — tudo é dele
se tudo lhe pertence, isso eu sei —,
mas como poderá ficar com quanto
é meu, se ainda o é, e dos meus olhos?
© as musas esqueléticas
Rascunho 23.5.04
Volta Cronos, volta montado em teu seu cavalo
pelos céus pelo céu preenchendo o horizonte,
e limita a vida ao pulsar do sol –
o espaço que vai do dia à
noite deste modo sucessivo
e renovadamente matemático e duro só na aparência.
Regressa, se és Volta, pois é aceite por não seres ser
o que outros julgam ser o que não és é,
um comedor de filhos odiado,
uma faca na pele que abre as rugas
e as afunda, por onde passariamdesaguam
os dias solitários que resumem
o curso descendente de quem quer
salvar-se no esplendor, não sendo mais
aqueles que lembraram haver sido.
Quanto a mim, Agora Por mim, dou-telhe as rosas, dou-telhe os cedros
e o abeto que vejo ali, na janela,;
dou-telhe também o rio onde vivi,
os pássaros, os peixes, os segredos
da infância acumulados e escondidos na folhagem,
a casa dos meus pais como a guardei;
dou-telhe os livros, o mundo que corri
e as mulheres que amei e que partiram
sem dizer adeus, sempre decididas,
dissolvendo-se no escuro da distância
solvendo-se em silêncio e na memória, só lembranças;
dou-te os livros e as terras que passei
dou-telhe mesmo as palavras que brilham mais amadas
no meu vocabulário, dos poemas que escrevo — tudo é teu dele,
que tudo telhe pertence, isso eu sei —,
mas como poderás poderá ficar com quanto
é meu, se ainda o é, e dos meus olhos?
Querem privatizar a água, os íntimos
lençóis de água de onde se geram rios,
e mares, e peixes, e grandes navios brancos
que demandavam outras terras
quando ainda as havia como esta que se esvai.
Parece não surgir quem se incomode.
Uns não fazem caso; os mesmos
que há oitocentos anos, de geração em geração,
sempre traíram, aplaudem;
e os magnates na sombra inventam
doutrinas políticas que os ministros
cumprem fielmente, mandatados pelo povo.
Povo, que abstracção mais rara.
Que se lixem! Já fiz o que devia
e quase me queimaram a casa e o jardim
quando em bando de gafanhotos migratórios
a turbamulta marchava contra mim,
em silêncio, sem palavras de ordem,
mas segurando facas e archotes,
parecia a wermacht na grande guerra,
as botas batiam na poeira o som da morte
e levantavam o cheiro dos cadáveres.
Que me importa que privatizem a água,
se tenho um poço e, além do mais,
posso ir de poço em poço comprar água,
se mo selarem por ordem do tribunal?
Tomara que viva o suficiente
para que a lei da água se cumpra
em todas as cidades e aldeias de velhos.
Hei-de ver o povo eleitor de máscara
e botija de ar às costas ir votar
e abastecer-se daquilo que é o vento,
os quatro ventos livres dos gregos,
encarcerado finalmente em depósitos.
Então arranjarei maneira de furar as nuvens
e, como de água tenho um poço,
terei um furo no céu para que o ar me seja grátis.
Mas agora vejo, ó musa lírica e saltitante,
que do que falo também é proibido
nos tratados de poesia contemporânea,
hão-de lembrar-me os aedos de cantar puro.
© as musas esqueléticas
Rascunho 18.5.04
Querem privatizar a água, os íntimos
lençóis de água de onde se geram rios,
e mares, e peixes, e grandes navios brancos
que demandavam outras terras
quando ainda as havia como esta que se esvai,.
e parece Parece não haver surgir quem se incomode.
Uns não fazem caso,; os mesmos
que há oitocentos anos, de geração em geração,
sempre traíram, aplaudem, ;
e os magnates na sombra inventam
doutrinas políticas que os ministros
cumprem fielmente, mandatados pelo povo.
Povo, que abstracção mais rara.
Que se lixem! Já fiz o que devia
e quase me queimaram a casa e o jardim,
quando em bando de gafanhotos migratórios
a turbamulta marchava contra mim,
em silêncio, sem palavras de ordem,
mas segurando facas e archotes,
parecia a wermacht na grande guerra,
as botas batiam na poeira o som da morte
e levantavam o cheiro dos cadáveres.
Que me importa que privatizem a água,
se tenho um poço e, além do mais,
posso ir de poço em poço comprar água,
se mo selarem por ordem do tribunal?
Tomara que viva o suficiente
para que a lei da água se cumpra
em todas as cidades e aldeias de velhos.
Hei-de ver o povo eleitor de máscara
e botija de ar às costas ir votar
e abastecer-se daquilo que é o vento,
os quatro ventos livres dos gregos,
encarceradoencarcerados finalmente em depósitos.
Aí hei-de arranjarEntão arranjarei maneira de furar as nuvens
e, como de água tenho um poço,
ter terei um furo no céu para que o ar me seja grátis.
Mas agora vejo, ó musa lírica e saltitante,
que do que falo também é proibido
nos tratados de poesia contemporânea.,
hão-de lembrar-me os aedos das palavras puras.
Quando este clamor branco se interpõe
e estende a fria luz sobre a cidade,
avivando os contornos estrangeiros
das casas e das ruas, e as flores e árvores
retomam o sentido inicial,
que é tudo ser o que é, e não mais que isso,
deserto o coração do que se amava
como se fosse o tempo derradeiro,
e nada mais houvesse que abandono
ou pena sem remédio, perdição
dos momentos alegres, recordadas
bocas e mãos na face dantes nossa,
quando este clamor branco se interpõe
— dizíamos —, e mais nenhuma luz
adoça a areia rude em nosso olhar,
morremos outra vez todas as vezes
já tidas dessa morte acumulada,
que é para assim morrer que se nasceu,
indo por entre as árvores urbanas,
sozinhos com momentos na memória.
© as musas esqueléticas
Rascunho 20.5.04
Quando este clamor branco e mudo se interpõe
e estende a sua luz sobre a cidade,
avivando os contornos estrangeiros,
das casas e das ruas, e as flores e árvores
retomam o sentido inicial
que é tudo ser externo ao que se mira o que é, e não mais que isso,
vazio deserto o coração do que era amado se amava
como se fosse o dia tempo derradeiro
e nada mais houvesse que amargura abandono,
ou pena sem remédio, perdição
dos momentos alegres, recordados recordadas
mãos e olhos numa face que era a nossa,
bocas e mãos na face dantes nossa,
quando este clamor branco e mudo se interpõe
se interpõe, — ia dizendo dizíamos —, e mais nenhuma luz adoça
adoça a infindável areia rude em nosso olhar,
morremos outra vez todas as vezes
já tidas dessa morte acumulada,
que é para assim morrer que se nasceu,
caminhando indo por entre as árvores urbanas,
sozinhos, com momentos na memória.
“Eu posso lá morrer, terra florida!”
Afonso Duarte
Hoje, mesmo que existas, não existes,
toda esta luz te vence, todos
estes carros que passam
entre o lilás e as rosas na janela
e no outro lado além os grandes cedros.
Nascidos do teu ventre, há sempre um dia
como este plenamente nosso,
em que rosas e cedros e carros que passam
se juntam e uníssonos ascendem
no grito vertical das aves:
Eu posso lá morrer, terra florida!
© as musas esqueléticas
Rascunho 18.5.04
Hoje, mesmo que existas, não existes,
toda esta luz te vence, todos
estes carros que passam
entre o lilás e as rosas na janela
e no outro lado além os grandes cedros verdes.
Nascidos do teu ventre, há sempre um dia
como este pleno e calmo e certo plenamente nosso,
em que carros e flores e árvores rosas e cedros e carros que passam
se juntam e em uníssono uníssonos ascendem
no grito vertical das aves rumo ao sol:
«Eu posso lá morrer, terra florida!»
Eu sei que não te importas se nos rimos,
se esquecemos as máscaras e os livros
com que se finge a vida e a luz.
Porque a luz é cá fora que cintila,
e já não sei de nada
que valha o sol de Maio e as suas árvores,
em cuja sombra dançam vultos brancos,
enlaçando-se e rindo como nós.
© as musas esqueléticas
Rascunho 17.5.04
Eu sei que não te importas se nos rimos,
se esquecemos as máscaras e os livros
de que não se constrói a vida com que se finge a vida e a luz.
e nos quais procuramos uma luz
Porque a luz é cá fora que cintila,
e já não sei se um bom poema de nada
que vale valha este o sol de Maio e as suas árvores,
em cuja sombra dançam vultos brancos,
enlaçando-se e rindo como nós
Vinham os dois da infância,
trazendo quanto tinham aprendido
sobre ninhos e o tempo das amoras
nas margens a montante
de peixes que brilhavam
e de águas que corriam para longe
com barcos de cortiça, e não sei
se de papel: invento assim
o horizonte que as águas lhes seriam
a correr para o mar;
e traziam imagens de outras terras
que lentamente foram esgotando,
com o devir dos anos transformadas
na percepção do olhar,
expulsos das cidades e do campo
por suas mesmas mãos
e também inocentes desse acaso,
volvendo numa espécie de destino
a dorida beleza acumulada
que tem de libertar-se por lhes ser
sempre um excesso, salvo quando
não a pensam beleza
e mergulham o rosto na folhagem
das árvores de Maio,
sentindo tão-somente o seu frescor
e a brisa luminosa;
e agora no lugar onde respiram,
longe de quanto foram e perderam
ou não quiseram,
uma trompete evoca
a voz de Miles Davis,
e entrega-os ao clamor da tarde,
remindo-lhes o peso do passado
e calando a toada melancólica.
© as musas esqueléticas
Rascunho 16 e 25.5.04
Vinha cada um da infância até ali,
trazendo quanto tinham aprendido
sobre ninhos e o tempo das amoras
nas margens a montante
de peixes que brilhavam
e de águas que corriam para longe
com barcos de cortiça, e não sei
se de papel,: invento assim
o horizonte que as águas lhes seriam
a correr para o mar;
e traziam imagens de outras terras
que lentamente foram esgotando,
com o devir dos anos transformadas
na densa percepção do olhar dos dois,
expulsos das cidades e do campo
por suas mesmas mãos
e também inocentes desse acaso,
que torna como um fado volvendo numa espécie de destiino
a dorida beleza acumulada
que tem de libertar-se por lhes ser
sempre um excesso, salvo quando
não a pensam beleza
e mergulham o rosto na folhagem
das árvores de Maio
sentindo tão somente o seu frescor
e a brisa luminosa;
e agora ali, no sítio onde chegaram, no lugar onde respiram,
longe de quanto foram e perderam
e perderam avanço de nove espaços ou não quiseram,
uma trompete evoca como deles
a voz de Miles Davis
e entrega-os ao clamor da tarde,
remindo-lhes os seus passados o peso do passado
e calando a toada melancólica.
Não sei de onde lhe veio a ideia dessa casa
no meio de colinas verdes e do vento,
casa de sol e cal, sozinha, as árvores
orlando campos de erva e de silêncio;
talvez da luz nos lagos árabes,
e também das estradas por onde chegara
aos povoados brancos do Sul; e da urbe
que escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas e de miúdos
com olhos de maldade subitamente adulta
entre a riqueza vária que cintila;
e de anseios e castas e puríssimas
paixões e experiência acumulada, a dor,
os rostos da família e o tempo que dilui
os retratos na sala da velha moradia;
ou só por respirar de encontro a um novo
dia sem mais futuro que ser céu e terra,
a que chamou a sua breve eternidade.
© as musas esqueléticas
Rascunho 15.5.04
Não sei de onde lhe veio a ideia dessa casa
no meio de colinas verdes e do vento,
casa de sol e cal, sozinha, as árvores
orlando campos de erva e de silêncio;
talvez da luz nos lagos e repuxos dos árabes,
e também das estradas por onde chegara
aos povoados brancos do Sul; e da urbe
que escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas e de miúdos
com olhos de maldade subitamente adulta
entre a vária riqueza vária que cintila;
e de anseios e castas e puríssimas
paixões e experiência, a dor acumulada, a dor,
os rostos da família e o ácido que oxida o tempo que dilui
os retratos nas salas na sala da velha moradia;
ou só por respirar de encontro a um novo
dia sem mais futuro que ser céu e terra,
a que chamou a sua breve eternidade.
EM NOME
Não sei de onde lhe veio essa casa de cal
no meio de colinas verdes e do vento,
talvez de uma paisagem renascentista ao fundo
e do sol e da luz na água de Alhambra,
e também das estradas por onde chegara
aos povoados brancos do sul, e da urbe
que escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas
e de miséria hiante de miúdos,
de anseios e de castas e
puríssimas paixões e experiência,
a dor acumulada do princípio,
os rostos da família morta e o ácido
que oxida os retratos
nas paredes ruídas da velha moradia.
Estou certo, ninguém sabe, nem ele,
de onde nasceu a ideia dessa casa irreal
que hoje quer povoar por ter sabido
que a eternidade é breve, e ainda assim
ser necessário havê-la e reparti-la
para que nada fique por cumprir.
Só desse modo é possível, confessou,
partilhar os poemas que mais se amam,
e dividir o olhar
com outro olhar o olhar as árvores,
antes que a eternidade a todos nos desminta.
© as musas esqueléticas
Rascunho 12.5.04
Não sei de onde lhe veio essa casa de cal
no meio das de colinas verdes e do vento,
talvez de uma paisagem renascentista ao fundo
e do sol e da luz na água de Alhambra,
de algum verso ecoado de Al Mutamid, o rei,
e também das estradas de onde vira
os povoados brancos do sul, e a cidade da urbe
que percorrera escura escura percorrera por nela ter vivido,
lugar de prostitutas exploradas
e da de miséria hiante dos de miúdos,
de anseios e de castas e
puríssimas paixões e experiência,
a dor acumulada do princípio,
os rostos da família morta e o ácido
que oxida os retratos na parede.
nas paredes da velha moradia.
Estou certo, ninguém sabe seguramente, nem ele,
de onde nasceu a ideia dessa casa irreal
que hoje diz habitar povoar por ter sabido
que a eternidade é breve, e ainda assim
ser necessário havê-la e reparti-la
para que nada fique incompleto por cumprir.
Só aí desse modo lhe é possível, confessou,
ler em paz partilhar os poemas que mais ama se amam,
ouvir os seus Cds e repartir dividir o olhar
com outro olhar o olhar nas as árvores,
antes que a eternidade se a todos os nos desminta.
Virá o dia, sei-o bem,
em que hei-de recusar-me a prestar contas
ao deuses que inventámos tão sedentos
de que houvesse mais vida
e a Cronos que se apaga
como acontece à luz nas salas de cinema,
sem que no entanto se vá ver
nenhum daqueles filmes que nos sobem
as entranhas para a alma,
dia seco e mais árido que qualquer outro,
imagino — ou
uma faca nas costas de repente o escuro.
Por agora ainda é cedo, talvez
por estar a ver estas rosas balouçando
suspensas na janela do escritório,
talvez por me lembrar de um choupo esguio,
aquele corpo belo,
e a copa de outros choupos como o rosto
que perdido sorvesse, mergulhando
no dúctil movimento de ceder.
Bem se vê que, existindo, não existe
o tempo que decresce e se tangemos
elegias a Cronos é
com "suma piedade" de nós mesmos,
quando haveria todas as razões
para não sermos nós, mas outros
que na cidade fôssemos em busca
de árvores e de rosas,
ou mesmo do automóvel que fugiu
com alguém que julgávamos amar,
sem se ouvir o silêncio digital
dos meses e dos anos, inscientes.
© as musas esqueléticas
Rascunho 11.5.04
Virá o dia, sei-o bem,
em que hei-de recusar-me a prestar contas
ao deuses que inventámos tão sedentos
de que houvesse mais vida
e a Cronos que se apaga
como acontece à luz nas salas de cinema,
sem que no entanto vá haver se vá ver
nenhum daqueles filmes que nos sobem
as entranhas para a alma,
dia seco e mais árido que qualquer outro,
imagino — ou
uma faca nas costas de repente o escuro.
Por agora ainda é cedo, talvez
por estar a ver estas rosas balouçando
suspensas na janela do escritório,
talvez por me lembrar de um choupo esguio,
aquele corpo belo, os cicios do vento
e a copa de outros choupos como o rosto
que perdido sorvesse, mergulhando
no dúctil movimento de entregar-se se elanguescer ceder.
Bem se vê que, existindo, não existe
o tempo que decresce e se tangemos
elegias a Cronos é
com "suma piedade" de nós mesmos.,
quando haveria todas as razões
para não sermos nós, mas outros
que na cidade fôssemos em busca
de árvores e de rosas,
ou mesmo do automóvel que fugiu
com alguém que julgávamos amar,
sem se ouvir o silêncio digital
dos meses e dos anos, inscientes.
Se puderes, vai ver os freixos à
Praça de Londres. Nada é mais limpo
que o sol que rumoreja na folhagem
e nada melhor temos que essa luz,
se a soubermos guardar como sabemos
para as palavras não ditas e os gestos
formados do silêncio. Depois filtra-se,
já o disse, no ardor com que se vive,
e torna-nos mais fundos face a face,
sem que ninguém suspeite na esplanada
dois seres tão anónimos haverem
estado ali e amado tanto os freixos,
como alguns vindos antes ou depois
sem deixar rasto de um poema
e que muito o ansiaram em seus nomes,
sem que isso nos revolva ou sequer lembre.
Vai, se puderes. A esta altura os táxis
dão início à corrida que transporta
o lado mais oculto de Lisboa
e a noite já se sente na esplanada.
Eu sei que somos de outro mundo e sei
sermos tanto do nosso como deste;
talvez por isso muito mais sejamos
das luzes que não tardam e do sol,
porque tudo nos pertence sem palavras,
e a tudo tanto amamos que escrevê-lo
seria muito pouco, comparado
ao sol nos freixos e às luzes de néon
urbanamente limpas, que é o mesmo
que ter em nós a abstracta humanidade,
sem querermos saber aonde levam
os táxis e os caminhos de Lisboa.
© as musas esqueléticas
Rascunho 8, 10 e 20.5.04
Se puderes, vai ver os choupos freixos, à
Praça de Londres. Nada é mais limpo
que o sol que rumoreja na folhagem
e nada melhor temos que essa luz
se a soubermos guardar como sabemos
para as palavras não ditas e os gestos
formados do silêncio. Depois filtra-se,
já o disse, no ardor com que se vive,
e torna-nos mais fundos face a face,
sem que ninguém suspeite na esplanada
dois seres tão anónimos haverem
estado ali e amado tanto os choupos freixos,
como alguns vindos antes ou depois
sem deixar rasto de um poema
e que tanto muito o ansiaram em seus nomes,
sem que isso nos subverta revolva ou sequer lembre.
Vai, se puderes. A esta altura os táxis
começam a dão início à corrida que transporta
a parte o lado mais oculta oculto de Lisboa
e a noite já se sente na esplanada.
Eu sei que somos de outro mundo e sei
sermos tanto do nosso como deste;
talvez por isso muito mais sejamos
das luzes que não tardam e do sol. ,
Porque porque tudo nos pertence sem palavras
e a tudo tanto amamos que escrevê-lo
seria muito pouco, comparado
ao sol nos choupos freixos, e às luzes de néon
urbanamente limpas, que é o mesmo
que sentir uma sentirmos a ser ter em em nós a abstracta humanidade,
sem querermos saber aonde levam
os táxis e os caminhos de Lisboa.
Aquela
nuvem branca em que o sol
cintila é a montanha a que subira
e onde hoje se reencontra
ao vê-la da janela sobre as árvores.
Olha-se: é uma luz vermelha que incandesce;
e o alvor da mocidade, a nuvem. Cronos dorme,
e com ele o futuro no seu sono.
© as musas esqueléticas
Rascunho 7 e 8.5.04
Aquela (aqui quebra de verso) nuvem alta branca em que o sol
cintila é a montanha a que dantes subia subira
e onde hoje me reencontro se reencontra
ao vê-la da janela por sobre cima as das das sobre as árvores.
SouÉ um ponto vermelho incandescente Olha-se: é uma luz vermelha que incandesce;
na alvura o alvor, a mocidade. Cronos dorme,
e com ele o futuro no seu sono.
Não precisas de estar aquém
da noção de pecado se inexiste
nem tão-pouco passá-la se te pesa.
No entanto
quem irá percorrer esta cidade
de hoje a duzentos anos?
Isso não te inquieta, não te chama?
Mas nada, eu sei, admite
se falseiem palavras transparentes
ou motivo que as force e desespere,
se tanto lhes queremos.
Vê como voam alto as aves migratórias.
© as musas esqueléticas
Rascunho 5.5.04
ALHEEMO-NOS
Diz-me Di-lo sempre que queiras. Não é preciso
ficar aquém das nossas espessas fronteiras
Não precisas de estar aquém
da noção do de um pecado nunca cometido que se inexiste,
nem tão-pouco passá-las passá-la se te pesa.
Se queremos a doce mansa combustão
dos dias permitidos, alheemo-nos.
No entanto
Quem> quem irá percorrer esta cidade
de hoje a duzentos anos?
Isso não te inquieta, não te chama?
Mas nada, eu sei, admite
se falseiem as palavras mais puras transparentes, ou motivo que as force
nemou e desespere,
se tanto lhes queremos.
Vê como voam alto as aves migratórias.
Haverá mais palavras como pássaro,
árvore, paraíso, quando o sol
torna deserto o rosto urbano
das fachadas nas suas linhas rectas?
Que poder haverá de convocar-se
para que o renault 5 em quinta mão
com duas sombras dentro
ganhe qualquer sentido e rume?
Não ruma, se não há rumo
na cidade inimiga que se encerra
em paredes tão brancas
que latejam nos olhos como os áridos
baldios que o mar deixa ao recuar,
quando tudo se acerca de perder-se,
ficando à vista atlântidas e náufragos,
multidões do passado e barcos
como automóveis velhos que lembramos
a apodrecer ao fundo do quintal,
sem que de tais visões alguém nos salve
com promessas, hostil cidade estéril.
© as musas esqueléticas
Rascunho 4 e 12.5.04
Haverá mais palavras como pássaro,
árvore, paraíso, quando o sol
torna deserta a face urbana deserto o rosto urbano
das fachadas nas suas linhas rectas?
Que poder haverá de convocar-se
para que o renault 5 em quinta mão
com duas sombras dentro
ganhe qualquer sentido e rume?
Não ruma, se não há rumo
na cidade estrangeira inimiga que se encerra
em paredes tão brancas
que latejam nos olhos como os áridos
baldios que o mar deixa ao recuar,
quando tudo se acerca de perder-se,
deixando ficando à vista atlântidas e náufragos,
multidões do passado e barcos
como automóveis velhos que lembramos
a apodrecer ao fundo do quintal,
sem que de tais visões alguém nos salve
em seu regaço com promessas, hostil cidade estéril.
Quando esta luz floresce as rosas
e se afasta do tempo,
espelhada no mar além da serra,
ocaso sem metáforas,
roçando-a, Galilei, a copa das florestas,
e em simultâneo adverte
que de humano só tem sabermos
que existe por se olhar, pensando
no denso mecanismo
que nos regula o sangue como aos bosques,
volve-nos ao passado
e a um presente que anseia sempre
próximo o tão distante gesto
no rosto dedicado à salvação
e nos esquece o trilho veloz do planeta.
© as musas esqueléticas
Rascunho 2.5.04
Quando esta luz floresce as rosas
e se alheia afasta do tempo,
vinda espelhada do no mar, além da serra,
ocaso sem metáforas vulgares,
roçando-a, Galilei, a copa das florestas,
e em simultâneo adverte
que de humano só tem sabermos
que existe por se olhar, pensando
no denso mecanismo
que nos regula o sangue como às árvores aos bosques,
e nos faz ter volve-nos ao passado
e um e a um presente que anseia sempre
próximo o tão distante gesto
num rosto devotado dedicado à salvação,
e nos esquece o esquecidos no trilho alheios à na da viagem e nos esquece o trilho veloz do planeta.