abril 03, 2004
O lume te recorde
Não os olhos que ferem a distância
no interior da noite
e se queimam nas chamas do seu frio;
ao contrário, o segredo na lembrança
de umas luvas que guardam
do gelo aquelas longas mãos.
Que te seja bastante.
A geada no escuro torna alvo o campo,
e na lareira o lume te recorde
como arde branda a noite no teu coração.
© as musas esqueléticas, 3.04.04
Rascunho - 3 a 4.04.04
Não os olhos que vazam ferem a distância
no interior da noite
e se queimam nas chamas do seu frio;
ao contrário, o segredo na memória lembrança
de umas luvas que guardam
do gelo em riste aquelas longas mãos.
Que te seja o bastante.
A geada no escuro torna alvo o campo,
e na lareira o lume te recorde
como arde branda a noite no teu coração.
abril 01, 2004
Monólogo com um amigo
que vê o sol que eu via
Se por acaso
tivesse ainda os teus vinte e quatro anos,
julgaria como dizes
os problemas da meia idade uma chatice,
a angústia que mulheres mais velhas do que tu
de si levam contigo para a cama.
Aí onde te gastas, um quarto de motel
ainda assim
é sempre o paraíso da primeira vez
e só se encerra quando os dois fecham a porta,
sem a alma e sem o corpo,
e se apartam sem serem já
a esperança que foram uma hora antes
ou a alegria dos corpos nus.
Voltamos sempre a nós, vais sabendo isso,
reunindo o que Almada disse ser
a experiência — restos—, tinha vinte e dois anos.
No entanto, descobriste que as miúdas
trazem o sol por trás do rosto,
o que é muito mais, digo-te,
que um quarto de motel.
Também um dia achei o dom de ver
em faces fugidias esse sol,
não íamos além de um bar.
Como hoje, eram esquivas as miúdas,
e como então a alguém,
cheiram-me a leite pré-materno,
o sol que te revelam
e a que não tenho agora mais direito.
© as musas esqueléticas, 1.04.04
março 31, 2004
Versos melancólicos sobre
o desentendimento da poesia
É triste vê-lo assim queixar-se
da glória dos poetas vivos,
dizer alto na rua à multidão
que os seus versos merecem outro fim.
Sempre o vi manejar laborioso
o jogo das metáforas
num caderno de folhas em quadrículas
onde apostava a vida e toda a solidão.
Deixou de me falar talvez por isso,
por apostar tão forte
a sorte que não sei jogar,
e por não o saber ganhei
o seu olhar oblíquo e um inimigo
que bebia comigo
o vinho tinto espesso partilhado
num restaurante à beira rio,
ambos a olhar o Tejo,
lucubrando em imagens literárias
as tágides de mármore na Expo.
Ainda o ouço ao longe, ignorando-me.
Fala sempre do mesmo,
mal chega no comboio suburbano
dos prédios que anoitecem.
Que não é justo o fado dos seus versos,
e insiste nas metáforas,
no caderno às quadrículas, nos livros,
sem suspeitar que estou a vê-lo
construir-se em efígie, o fumo, a eternidade.
© as musas esqueléticas, 30-31.03.04
março 29, 2004
Em Defesa de Um Homem Que
Também Se Chamava Luís de Camões
Tornou-se um adjectivo por ser a alma,
o génio, a língua, a pátria, quanto queiram
os que querem servir-se ou igualá-lo,
ou simplesmente lermo-lhe os seus versos.
No entanto, chegasse ele ao café para
sentar-se numa mesa qualquer destas
e nenhum de nós daria o quer que fosse
pelas rugas vincadas dos seus olhos.
Depressa temeríamos distúrbios,
cheirasse mal, corresse os empregados,
enfim acaso olhasse sem decência
a cantada Senhora, que se despe
não para ele, está visto, para outro,
o cavalo que relincha e a cobrirá
até lhe ouvir acaba, já não posso,
que a fluidos se reduzem as manhãs,
entre lençóis o cheiro a sexo frio.
E em troca desse olhar escreveria
Quem vê que em branca neve nascem rosas
num qualquer guardanapo de papel,
que é onde se escrevem os poemas
por que toda a mulher suspiraria,
não fosse o garanhão branco de luz
que faz do rio um mar de esperma o peito.
Não fosse. É-o sempre, para bem
de todos no café e não para ele,
que o ser não conta, conta o que ele
escreve numa mesa, e nunca esse óxido
que arredonda as palavras e as torna densas.
Somente a teimosia de arrancar
de si a luz clara e o mundo infindo
vive num guardanapo de café
onde, por cima do ombro, a gente vê
em versos alinhados um soneto
que, de quem escreve, é somente a cinza,
e do nome dela, o espelho conturbado.
E o que se lê é tudo quanto resta
no inútil guardanapo de papel,
se morto não lhe servem as palavras
e os beijos que lhe sorvem só a música.
© as musas esqueléticas
Rascunho - 29 a 30.03.04
Tornou-se um adjectivo: é o génio por ser a alma,
éo génio, a língua, é a pátria, é quanto queiram
os que querem servir-se ou igualá-lo,
ou simplesmente lê-lo lermo-lhe nos os seus versos.
No entanto, chegasse ele ao café para
sentar-se numa mesa qualquer destas
e nenhum de nós dava o quer que fosse
pelas rugas vincadas dos seus olhos.
Depressa temeríamos distúrbios,
cheirasse mal, corresse os empregados,
enfim acaso olhasse sem decência
a cantada Senhora, que se despe
não para ele, está visto, para outro,
o cavalo que relincha e a cobrirá
até lhe ouvir acaba, já não posso,
que a fluidos se reduzem as manhãs,
entre lençóis o cheiro a sexo frio.
E em troca desse olhar escreveria
Quem vê que em branca neve nascem rosas
num qualquer guardanapo de papel,
que é onde se escrevem os poemas
por que toda a mulher suspiraria,
não fosse o garanhão branco de luz
que faz do rio um mar de esperma o peito.
Não fosse. É-o sempre, para bem
de todos no café e não para ele,
que o ser não conta, conta o que ele
escreve numa mesa, e nunca esse óxido
que arredonda as palavras e as torna densas.
Somente a teimosia de arrancar
de si a luz clara e o mundo infindo
vive num guardanapo de café
onde, por cima do ombro, a gente vê
em versos alinhados um soneto
que, de quem escreve, é somente a cinza,
e do nome dela, o espelho conturbado.
E o que se lê é tudo quanto resta
no inútil guardanapo de papel,
se morto não lhe servem as palavras
e os beijos que lhe sorvem só a música.
março 28, 2004
Está morto el-rei D. João II,
e os poetas da corte vão mudando
conforme o seu senhor;
hoje é um, amanhã é outro,
e todos se parecem pressurosos
com quem lhes dita os versos
e em glória os imprime e dá ao reino.
Um punhado de terra a cada geração
enche a boca de Camões,
e agora nenhum vate surge
que não escreva
o seu pessoalíssimo sentir
em que o país se afunda sem saber.
© as musas esqueléticas, 27-30.03.04


